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    Marcos Vinicius Cabral
    Marcos Vinicius Cabral
    Formado em Comunicação Social pela Anhanguera, campus Niterói, Marcos Vinicius Cabral é jornalista com passagens pelo O São Gonçalo, A Tribuna, Coluna do Fla e o POVO. Rubro-negro desde o nascimento é, ao lado de Sergio Pugliese, autor do livro sobre o Leandro, ex-lateral do Flamengo e da seleção brasileira.
    InícioColuna do CabralO calígrafo da bola

    O calígrafo da bola

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    “Maradona merece reverência!”

    “Não acredito meu Deus!” Foi o que me escapou às 13h15 daquela quarta-feira, 25 de novembro, quando estacionei o carro sob a copa generosa de uma amendoeira, bem ao lado da barraca de seu Antônio e do mercado onde, segundos antes, eu havia deixado minha esposa e a mãe dela.

    Naquela sombra fresca, enquanto esperava, peguei o celular para conferir o turbilhão de notificações que pipocavam no WhatsApp. Abri uma, outra, mais outra – e o pressentimento virou certeza: Maradona não driblara a morte.

    Continuei com o aparelho nas mãos. Olhei para o céu, fechei os olhos, recosteia a cabeça na porta do carro. O nome dele tomou conta do pensamento: Diego Armando Maradona Franco.

    “Tá passando mal?”, perguntou seu Antônio, dono do caldo de cana mais saboroso de São Gonçalo.

    “Não… tô pensando no Maradona”, respondi.

    Ele respondeu com um “Eu, hein!”, como se eu fosse maluco. Talvez fosse impossível entender o sentimento ali, naquele minuto suspenso. Mas se ele não compreendeu, imagine nós – os amantes do futebol – recebendo a notícia da partida do maior jogador da história da Argentina?

    Fiquei ali não mais que dez minutos, mas o suficiente para que minha lembrança saísse em disparada.

    No silêncio quase fúnebre, pensei nos jovens que perderam a vida na Guerra das Malvinas, quando a Argentina tentou – e falhou – em recuperar o arquipélago sob o domínio britânico. Seiscentos e quarenta argentinos fecharam os olhos para sempre; 255 ingleses voltaram para casa dentro de caixões.

    E então meu pensamento viajou até 22 de junho de 1986 – quatro anos depois daquele conflito. Dessa vez, nada de armas, helicópteros ou explosivos.

    Apenas o Estádio Azteca repleto, onde 22 homens e uma bola como única munição numa batalha simbólica: o gol.

    A revanche veio pelos pés, por uma mão divina e por um “Dios” vestido de azul-celeste. Maradona eternizou ali um jogo que, como aponta Paulo Vinícius Coelho em ‘Os 50 maiores jogos das Copas do Mundo’, figura entre os mais importantes da história.

    E seu gol – aquele aos 36 minutos do segundo tempo – segue coroado como o mais belo entre as vinte e duas edições de Mundial.

    Minha viagem mental foi longe. Lembrei da Argentina de Bilardo, frágil, mas traiçoeira, que derrubou o Brasil por 1 a 0 no Delle Alpi, em 1990, graças ao rompante iluminado de um camisa 10 de 1,65m.

    Em um passe de luz – desses capazes de colocar Thomas Edison no bolso – Maradona deixou Caniggia livre para selar o único gol da partida. Éramos melhores, mas a jornada brasileira acabava ali, ainda nas oitavas.

    Veio então a lembrança dos jogos transmitidos pela Bandeirantes, dos títulos napolitanos de 1986/87 e 1989/90, das narrações de Luciano do Valle, Silvio Luiz, Jota Júnior e Juarez Soares.

    Veio também, sobretudo, a imagem do grito: aquele gol raivoso contra a Grécia, em 1994, com Maradona berrando para a câmera como quem desafia o mundo. Ele queria provar que ainda estava inteiro, que aos 33 anos podia conduzir a Argentina a mais um título, que o passado de cocaína e suspensão ficara para trás. Golaço para entrar na história – e suspensão para tirá-lo naquela Copa.

    Também lembrei dos debates acalorados com amigos – Kiko Charret e Jorge Quintanilha – sobre quem foi o maior: Maradona ou Pelé; eu defendia Pelé.

    Mas Diego era verso, reverso e controverso. Conquistou ao mesmo tempo a devoção e o contraditório. Virou ídolo absoluto, tema de culto e até dono de um ‘Natal’ argentino celebrado em seu aniversário, 30 de outubro.

    Hernán Amez, jornalista, ajudou a fundar a igreja Maradoniana, em 1998, que reverencia o tetragrama D10S – combinação perfeita de Deus (Dios), Diego e a camisa 10.

    Ainda daria tempo de pensar no menino pobre de Villa Fiorito, na luta contra os vícios, nas rugas com a imprensa. Mas o clique da porta do carro se abrindo me trouxe de volta.

    “Vamos embora, meu bem, que estamos atrasados para o almoço”, disse minha esposa, poupando-me de mergulhar mais fundo em lembranças tão duras sobre alguém que fez tanto bem ao futebol.

    Maradona merece reverência. O cidadão Diego Armando Maradona Franco, respeito.”

    Marcos Vinicius Cabral

    Foto em Destaque: Lance!

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