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    Marcos Vinicius Cabral
    Marcos Vinicius Cabral
    Formado em Comunicação Social pela Anhanguera, campus Niterói, Marcos Vinicius Cabral é jornalista com passagens pelo O São Gonçalo, A Tribuna, Coluna do Fla e o POVO. Rubro-negro desde o nascimento é, ao lado de Sergio Pugliese, autor do livro sobre o Leandro, ex-lateral do Flamengo e da seleção brasileira.
    InícioColuna do CabralMeu Manto, primeiro e único

    Meu Manto, primeiro e único

    Publicado em

    Um livro que renasce…

    Há momentos que mexe com a gente de tal forma que não cabe difini-los em poucas palavras. Pintar o Leandro não foi só um trabalho, não foi apenas mais uma obra – foi um encontro direto com a minha própria história, com aquilo que me formou lá atrás, quando eu ainda nem entendia direito o tamanho do que eu sentia.

    Desde os meus dez anos, lá no Barreto, em Niterói, esse sentimento já existia, forte, silencioso e teimoso. Enquanto Zico, buscava o brilho, o gol, o protagonismo, eu escolhia outro caminho.

    Eu escolhia o Leandro. E hoje eu entendo o quanto essa escolha dizia sobre mim. Eu me identificava com a entrega, com a inteligência, com a elegância de quem jogava muito sem precisar gritar.

    O Leandro nunca foi só um lateral. Ele era leitura de jogo, técnica refinada, regularidade e alma dentro de campo.

    E eu levava isso comigo de um jeito quase simbólico. Pegava a minha camisa do Flamengo, presente do meu pai por ter passado de ano na escola, e colava uma fita isolante em cima do número 10, transformando ele em um 2.

    Aquilo, para mim, era mais do que uma adaptação improvisada – era uma informação silenciosa. Era como se eu dissesse: “Eu sei quem eu sou e sei quem eu admiro”.

    O tempo passou, mas esse sentimento nunca se perdeu. Ele ficou guardado, amadurecendo dentro de mim. E foi justamente dessa idolatria, desse amor construído desde a infância, que nasceu o projeto do livro.

    “Meu Manto, primeiro e único” não surgiu por acaso – ele nasceu dessa conexão verdadeira, dessa admiração que atravessou anos e nunca enfraqueceu.

    Só que poucos sabem, mas essa história também carregava amizade, tristeza e dor.

    O livro, inicialmente teria outro caminho. O Gustavo Roman seria o autor. Ele abraçou o projeto, mergulhou na história, começou a dar forma ao que seria uma obra incrível.

    Mas a vida, às vezes, muda tudo de forma brutal. Quando ele foi morar nos Estados Unidos, acabou contraindo Covid-19. Ainda  assim,  mesmo hospitalizado, ele não deixou o projeto de lado. Três dias antes de partir, me enviou três capítulos do livro. Disse que assim que saísse do hospital, mandaria o restante.

    Mas não deu tempo.

    Guga morreu.

    E como se a dor da perda já não fosse suficiente, veio algo ainda mais revoltante: dentro do hospital, seus pertences foram roubados. E junto com eles, o livro praticamente inteiro – um trabalho pronto, construído com dedicação, simplesmente desapareceu.

    Foi  um golpe duro. Um silêncio pesado. Um vazio. Eu e Leandro sentimos muito.

    Leandro desistiu da ideia de ter a sua história contada. Foram momento difíceis.

    Parecia que tudo tinha acabado ali.

    Maz talvez existam coisas que realmente são maiores do que a gente entende. Quis Deus que, justamente nesse momento tão difícil, eu tomasse a decissão de seguir.

    Convidei o Sergio Pugliese, e juntos resolvemos recomeçar do zero.

    Do zero mesmo.

    Sem o material, sem o que já estava pronto, apenas com a vontade, a memória e o compromisso de não deixar essa história morrer.

    E isso muda tudo.

    Porque o livro deixa de ser apenas um projeto e passa a ser também uma missão.

    Um resgate.

    Uma forma de honrar não só o Leandro, mas também o Gustavo, que começou essa caminhada e não pôde terminar.

    E quando penso no Leandro, isso tudo ganha ainda mais sentido. Porque ele também foi, muitas vezes, subestimado. Um craque gigantesco, dono de uma inteligência absurda dentro de campo, mas que nem sempre recebeu o reconhecimento proporcional à sua grandeza.

    E ainda assim, construiu uma carreira brilhante, mesmo enfrentando os problemas físicos e de joelhos, sendo peça fundamental em uma das maiores gerações da história do Flamengo.

    Foram quatro Campeonatos Brasileiros (1980, 1982, 1983 e 1987), a Libertadores de 1981, o Mundial Interclubes de 1981 e diversos títulos cariocas. Uma trajetória vitoriosa, sólida, marcante – de quem nunca precisou aparecer mais do que o jogo exigia, mas sempre esteve lá, decisivo, essencial.

    E talvez seja isso que mais me conecta a ele.

    Essa grandeza silenciosa e a simplicidade de um gigante do futebol.

    Hoje, ao olhar pra tudo isso – o menino do Barreto com a camisa improvisada, o quadro sendo entregue em Cabo Frio ao lado do Sergio, o livro renascendo depois de uma perda tão dolorosa – eu entendo que não é só sobre futebol, nem só sobre arte.

    É sobre resistência.

    É sobre não deixar morrer aquilo que é verdadeiro.

    A ansiedade que eu sinto agora é intensa, mas é carregada de propósito. É o coração de quem sabe que está vivendo algo que vai muito além de um sonho realizado.

    É a certeza de que cada passo até aqui, mesmo os mais difíceis, fazia parte de algo maior.

    E no fim das contas, tudo volta para aquele garoto de dez anos.

    Só que agora, ele não sonha sozinho. Ele vive o que um dia achou impossível.

    leandro1

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