Em desfile da Série Prata, torcida organizada e escola de samba homenageia a lenda do atletismo Érica Lopes, a Gazela Negra.
O carnaval do Rio de Janeiro é dos eventos populares mais famosos e notórios do Brasil e do mundo. Para muitos, é o maior espetáculo da Terra e mesmo assim há tradições de outros estados que acabam invadindo esse campo, como a elevação de torcidas organizada ao posto de escolas da samba.
Isso ocorre bastante com as torcidas do Flamengo e falaremos disso nesse artigo, embora o foco seja outro, claro.
Nesse ano, a torcida Fla Manguaça concorre na Série Prata, que é o equivalente a terceira divisão do samba carioca, homenageando uma figura histórica e lendária, a profissional do atletismo Érica Lopes, conhecida pela alcunha de Gazela Negra.

Além dela, também serão lembradas outras personalidades da história atlética do Clube de Regatas do Flamengo, com foco no futebol, ginástica olímpica e outras modalidades, citando campeões nos gramados nacionais, internacionais e em competições olímpicas no estrangeiro.
A ideia é valorizar as identidade negras, citando as figuras do panteão flamenguista, os ídolos e pessoas pretas que marcaram e marcam época.
A força do tempo e o tema pungente
Em um tempo onde boa parte das escolas do Grupo Especial fazem menção a tradições afro-brasileiras, mencionando a tradição negra do samba e da identidade carioca, há quem reclame e divirja disso.
Até mesmo alguns carnavalescos vociferam contra a quantidade de temáticas e enredos relacionados justamente a esse identidade.
Dito isso, é bom demarcar território. O Carnaval é uma festa do povo.
Todos têm o direito de fazer o que quiser, de homenagear o que quiser e defender quaisquer bandeiras, desde que não sejam de intolerância ou caça a qualquer direito. Um enredo racista ou xenófobo certamente não prosperaria.
Em suma: o enredo de cada um é problema desse um, ou mais popularmente falando, é problema desse “cada um”. Todos os temas são carnivalizáveis, mas reclamar da representação negra ou preta é só tolice e idiotice.
Sobre não falar de curimba, da macumba ou das religiões afro, é até melhor que quem não entende não mexa nisso, afinal, quem não pode com a mandinga não carrega o patuá.
Érica, a Gazela Negra e muito mais
Em entrevistas recentes, o presidente da escola de samba, Felipe Amorim disse que a escolha pela homenagem a Érica surgiu após conversas informais, com amigos.
A homenageada recebe o louvor ainda em vida, aos 88 anos.
Segundo o release oficial: O Coletivo Gazela Negra, o quilombo contra o racimo busca valorizar grandes atletas negros do Flamengo, como Domingos da Guia, Fio Maravilho, Andrade, Vinicius Júnior, Rebeca Andrade, Izaquias Queiroz e claro, Érica Lopes.
Dentro da letra, de Pretinho da Serrinha, Fred Camacho, Gustavo Clarão e Tito José se valoriza momentos do passado e a luta recente de diversos atletas, desde os divisivos e combatentes, como o atual melhor jogador de futebol do mundo Vini Jr., que faz de sua carreira e trajetória uma bandeira contra o racismo, até os que são unanimidade em popularidade, como a ginasta dourada Rebeca Andrade, que trouxe o ouro na olímpiada passada, em Paris.
Vale lembrar que Gustavo Clarão participou da composição de sambas mil, como o da Estácio de Sá de 1995, Uma Vez Flamengo, que completou 30 anos recentemente.
A ordem dos desfiles
O horário de início é logo após as duas escolas do Grupo de Avaliação, que desfilam a partir das 18 horas. A escola flamenguista é a quarta a se exibir, de acordo com o site da Prefeitura, o horário previsto é às 22 horas.
A ordem será:
1 – Independentes de Olaria
2 – Flor da Mina do Andaraí
3 – Império de Nova Iguaçu
4 – Fla Manguaça
5 – Acadêmicos do Engenho da Rainha
6 – Acadêmicos de Santa Cruz
7 – Vizinha Faladeira
8 – Acadêmicos da Rocinha
9 – Leão de Nova Iguaçu
10 – Alegria de Copacabana
Quem era a Gazela Negra
Atleta nascida em Porto Alegre no Rio Grande do Sul, chegou ao Flamengo nova, aos 22 anos, ou seja, 66 anos atrás.
Ganhou a medalha de bronze no Pan-Americano de 1963, também venceu por outros clubes, como o Grêmio e o Internacional.
O Desfile
A escola busca o acesso para a Série Ouro, a segunda divisão do Carnaval fluminense. Esse grupo permite a agremiação desfilar na Sapucaí.
No momento a disputa é na Intendente Magalhães, uma avenida suburbana carioca, que corta alguns bairros da Zona Norte, como Vila Valqueire, Madureira, Oswaldo Cruz, Cascadura e Campinho.
A concentração da escola se dará na Rua Ernani Cardoso, às 18 horas.

Segundo Amorim, essa é uma ocasião para celebrar a cultura negra brasileira e dar visibilidade a temas importantes enquanto se dança e se festeja. Para isso, a escola investe em qualidade, em elementos de pirotecnia e beleza na passarela.
Torcidas e escolas de samba: algo “exportado”
O Carnaval de escolas de samba do Rio de Janeiro é obviamente o mais tradicional no Brasil. Entre dezenas de polêmicas, como o fato da escolas cariocas serem patrocinadas por pessoas da contravenção, uma coisa que ocorria em São Paulo começa a acontecer aqui: a entrada de torcidas de futebol no cenário competitivo da festa.
Em São Paulo, a Gaviões da Fiel, a Mancha Verde e Dragões da Real são escolas ligadas a times de futebol, sendo do Corinthians, Palmeiras e São Paulo respectivamente.
Dessas, a Gaviões é a mais tradicional, com quatro títulos. A Mancha tem dois e é a atual campeã, mesmo com os atritos que tem com a atual mandatária do clube, a presidenta Leia Pereira. Dragões ainda não ganhou um título.
Ainda há a Independente, do grupo de Acesso 1, ligada ao São Paulo, além da Camisa 12 e Torcida Jovem, ligadas a Corinthians e Santos, que estão no grupo Acesso 2.
Em 1990, se pensou em fazer um desfile separado, à parte, de competição entre essas, mas a ideia não vingou. Ou seja, lá em São Paulo já havia um certo incômodo. A mistura de enredo de futebol na avenida sempre foi polêmico, até no Rio, vide o sétimo lugar da Estácio em 1995 e o rebaixamento da Unidos da Tijuca em 1998, que homenageou o centenário do Vasco.
Vale lembrar que além da Fla Manguaça, também há a Raça Rubro-Negra e Imperadores Rubro-Negros, ligadas a torcidas do Flamengo, além da Força Jovem, do rival Vasco da Gama. Essas desfilarão dia 7 de março, a próxima sexta-feira.
Vale a pena refletir se essa tradição deve ou não ser seguida no carnaval do Rio de Janeiro.
A Letra de Gazela Negra
A letra do samba é simples, direta, associa Érica a mulher brasileira como um todo, a uma alma ancestral, do continente africano. Valoriza a atleta, sua velocidade, a luta contra o racismo e a emancipação de toda uma raça.
Confira o conteúdo:
Gazela Negra: O Quilombo Contra o Racismo
Mulher brasileira de alma africana
Atleta guerreira, o samba te chama
Gazela Negra corre o tempo no olhar
Contra o racismo empunho alta a bandeira
Com a coragem conquistou o seu lugar
Orgulho de todas as gerações
Quebrou amarras, arrebentou grilhões
Eparrey Oyá! Feito ventania
Preta reluziu pra afastar o mal
Vencer demandas, reinar na pista
E se apaixonar em pleno carnaval
Nega sua fama se espalho
O mundo te consagrou
Espelho dessa nação
Nega lutou pra sobreviver
Tão lindo te ver vencer
Pioneira do panteão
Um legado para eternidade
Fla Manguaça é só felicidade
O Olimpo é aqui
Um chão de estrelas
E minha história tem que respeitar
De corpo, alma e coração
Sou campeão de terra e mar
Quero ver quem vai falar do meu cabelo
Quero ver quem vai julgar a minha fé
E no pódio da igualdade
Tem povo preto
Ouro, prata e bronze
Sou o que quiser
Em breve retornamos com mais informações e análises.
Vamos Flamengo!