19.4 C
Rio de Janeiro
Mais
    Filipe Pereira
    Filipe Pereira
    Escritor, roteirista, jornalista com foco em cultura, esporte e política. Acima de tudo rubro-negro.
    InícioDestaqueCrônicas, simplesmente Crônicas, um libelo literário e terno, de João Epifânio Lima...

    Crônicas, simplesmente Crônicas, um libelo literário e terno, de João Epifânio Lima Campos

    Publicado em

    Livro reúne crônica de um homem de bem com a vida, um trabalhador erudito e já aposentado, que resume os fatos de sua existência de modo leve e divertido

    Ora, esse Voz do Ninho é um site sobre Flamengo, que busca na base da informalidade, pontuar o cotidiano rubro-negro. No entanto, abrimos uma exceção nesse artigo, para analisar um livro, de autoria de João Epifânio Lima Campos.

    O nome desse é Crônicas, simplesmente Crônicas, uma publicação da editora Forever.

    Seu formato é simples, curto e direto, resultando assim em uma reunião de pequenos textos, de contos breves e crônicas a respeito do cotidiano, da vida e do universo comum a uma pessoa de classe média.

    O motivo para estar aqui

    Talvez o leitor sinta curiosidade respeito do fato de uma análise dessa publicação ser feita nesse site.

    Pois bem, João Epifânio é uma das maiores inspirações da senhorita Maria Silvia Regis Lima, a popular Silvinha ou Silvia Lima, sócia fundadora desse Voz.

    Para quem não sabe, Silvinha é também escritora, revisora e criadora de arte. Ela assina a revisão de alguns escritos de João, mas não no caso, além de ser capista da publicação analisada.

    Ela inclusive é citada em alguns momentos do livro, inclusive sobre outras profissões que exerceu, já que foi uma belíssima decoradora também.

    A relação entre Silvia e João era intensa, forte, com laços sentimentais e sanguíneos. Recentemente o escritor deixou o plano terreno e se juntou a Eternidade, foi para onde todos os imortais da arte estão.

    Resolvemos tentar valorizar o seu legado da nossa forma: singela e humildemente analisando uma de duas obras, ainda que de maneira breve, para não enfadar o leitor.

    O conteúdo

    A publicação reúne os textos intitulados Camisa Desfraldada, Nem tanto à terra…nem tanto ao mar, Tempestade em copa d’água, O desquite, Sexta-feira 13, Confissões de um distraído, Erro médico, Pontualidade, O diabético, O quisto sebáceo, Não se deixe enganar, O pé-frio, Crônica em preto e branco, Nunca se fie na memória, O economista, A força do hábito, O grande anão, A bolsa, Flores do lodo, O garanhão, Lunga, Nas mãos do destino, A mudança, Quem espera, O seguro morreu de velho, A viagem, Simpatias, Papai noel, Operação Salomé, Apuros de aposentado, A pedra filosofal, Ocolatudo, A injeção, A indiscutibilidade do gosto, A sogra e Rabo-de-Palha.

    Uma biografia, mas nem tanto…

    A maioria desses escritos recaem no formato de autobiografia e referências ao próprio cotidiano, como se vê em Camisa Desfralda, primeiríssima crônica, onde João reclama de um cinto caro que sua esposa comprou.

    A citação ao tal presente é meramente um pretexto para ele criticar, em tom jocoso (e respeitoso, claro) a mania de sua cônjuge em mandar nos seus atos.

    Curiosamente era assim que ocorria nos últimos anos do escritor, já que sua esposa é uma mulher decidida, resoluta e mandona, além de amorosa e cuidadora.

    Uma coisa é certa, ela tinha por hábito sempre delegar ordens a ele, como aliás é bastante comum entre casais que vivem uma vida inteira juntos.

    É natural que a paixão se torne amor e com o tempo, o amor se torna um cuidado, que por sua vez é derivado da cumplicidade entre casal. O que os jovens podem chamar de chatice, na maturidade há de ser encarado como o sentimento é de fato: um alvo de carinho e tesouraria, que mira envolver seu maior bem em uma aura de proteção, ainda que nem sempre seja possível proteger tal alvo.

    A mera tentativa de fazer isso, de montar uma redoma em torno da pessoa já é um baita ato de amor e era justamente isso que ocorria entre o casal, mutuamente, com foco maior no cuidado da mulher para com o marido.

    Referências pessoais e universais

    Além dos comentários familiares, ainda há referências a casais do passado, como o do humorista famoso e celebre Chico Anysio com Zélia Cardoso de Mello, professora acadêmica que foi ministra da fazenda no governo Collor, inclusive no infame episódio de confisco das poupanças.

    O grosso dos contos e crônicas são passagens de um dia a dia comum, poetizadas por uma forma de escrita que valoriza um lirismo literário. Brigas conjugais, superstições (que João Epifânio insiste em dizer que não têm, embora claramente as tenha…) cuidados com animais de estimação, absolutamente tudo é motivo para refletir de maneira jocosa sobre a rotina.

    Lembra o espírito de A Comédia da Vida Privada, seriado dos anos 1990, que foi criado por Jorge Furtado e Guel Arraes, além de ter episódios escritos pelo finado Luiz Fernando Veríssimo, ou Os Normais, criação de Fernanda Young e Alexandre Machado, seriado que marcou os anos 2000, embora esse Crônicas, simplesmente crônicas seja mais elegante e bem menos escrachado que as aventuras de Rui e Vani.

    Contextos

    Há alguns de seus textos que precisam ser apreciados dentro de um universo “à parte”. Como o humor de Campos é ácido, vez por outra passa por momentos que podem soar preconceituosos aos olhos do leitor.

    No entanto, é preciso entender a intenção, a cronologia da escrita e o contexto.

    Analisar qualquer evento ou coisa sob o viés das discussões atuais pode ser um esforço inútil, especialmente quando se trata de obras do passado. Achar que a moralidade (se é que pode se chamar isso de moralidade…) reside também no passado, é imutável, eterna e universal é algo errado. Esse é um pensamento que recai sobre um anacronismo tosco e muito tolo.

    Dito isso, há sim algumas partes do texto que podem ser encaradas como manifestações de preconceito, mas é tudo dado de maneira elegante e simpática, com intenção não de menosprezar, mas sim de jogar com as palavras, brincando com as flexões e inflexões da língua portuguesa.

    Vale lembrar que nem tudo que é escrito aqui é para ser encarado de forma literal, afinal, são essas as reminiscências um homem aposentado, de classe média, que mira tão somente fazer troça com a ironia típica do cotidiano.

    Levar a ferro e fogo ou a sério tudo isso é de uma futilidade atroz.

    Cenários

    Normalmente a localização dos contos é em São Paulo, onde João Epifânio residiu por boa parte de sua vida, mas vez por outra ele descreve momentos em Aracaju, no Sergipe, local da origem sua e de sua família.

    Em diversos momentos ele resgata suas origens nortistas, traçando paralelos entre a cultura sergipana e a selva de pedra que é a cidade paulistana, além de referenciar outros lugares e cidades nos arredores.

    Suas histórias no entanto são tão extraordinariamente comuns que poderiam se passar em qualquer lugar do globo. A graça não está no lugar que as crônicas descrevem, mas sim na mente que interpreta cada momento.

    O ordinário se torna extraordinário e a vida comum vira uma poesia simples e direta, pelos olhos e dedos de Lima Campos.

    Desfecho emotivo

    Os últimos textos João utiliza para brincar com sua parceira e esposa, a quem ele chama de Vanda.

    Há falas sobre o medo de agulhas, também sobre a mania de mandar e um pouco sobre os gostos dos dois, salientando que o seu par gostava bastante de sorvete com cobertura, enquanto ele tinha predileção por pizza sabor pepperoni.

    De modo engraçado e elegante, ele faz uma ode ao amor da sua vida, deixando claro o quão cara e agradável ela era com ele, mesmo nos momentos de discórdias e pequenas contendas.

    Como é natural gostar de suas palavras, é natural entender a natureza dessa família, que infelizmente, ficou menor esses dias, perdendo a sua figura de patriarca.

    Crônicas, simplesmente crônicas é um exemplo de literatura pontual e que deveria ser descoberta por mais leitores. Lima Campos é um autor que recebeu alguns louros em vida, mas certamente merece ainda mais reconhecimento, ainda mais considerando a qualidade de seus textos curtos. Resulta enfim numa leitura rápida, fácil e extremamente prazerosa, especialmente para o leitor que gosta de visões criativas a respeito do cotidiano.

    Despedida

    Por último, prestamos aqui nossas condolências a família de João, que certamente segue abalada diante da perda de tão eminente figura. Um homem de talento, coração, amor e cuidado.

    Nossos sentimentos.

    Últimas Notícias

    Flamengo enfrenta o Minas na Superliga Feminina de Vôlei

    Minas x Flamengo, na Arena UniBH! As Meninas do Flamengo viajam nesta quinta-feira (05) para...

    Quem são os auxiliares do novo técnico do Flamengo?

    Comissão técnica de Jardim acompanha treinador do Flamengo há anos! Leonardo Jardim comandou seu primeiro...

    Depois da “trairagem” ao técnico FL, Leonardo Jardim comanda primeiro treino no Flamengo

    Novo técnico do Flamengo será apresentado oficialmente no Ninho! Leonardo Jardim comandou seu primeiro treino...

    Torcedores do Flamengo detonam demissão de Filipe Luís

    Ditadura no Flamengo: Demissão surpresa de Filipe Luís revolta torcedor Rubro-Negro! Após a goleada do...

    Leia Mais

    Flamengo enfrenta o Minas na Superliga Feminina de Vôlei

    Minas x Flamengo, na Arena UniBH! As Meninas do Flamengo viajam nesta quinta-feira (05) para...

    Quem são os auxiliares do novo técnico do Flamengo?

    Comissão técnica de Jardim acompanha treinador do Flamengo há anos! Leonardo Jardim comandou seu primeiro...

    Depois da “trairagem” ao técnico FL, Leonardo Jardim comanda primeiro treino no Flamengo

    Novo técnico do Flamengo será apresentado oficialmente no Ninho! Leonardo Jardim comandou seu primeiro treino...