Radialista famoso, Washington Rodrigues, conhecido como Apolinho, aportou em 12 de setembro de 95 na Gávea, para treinar o Flamengo no ano do seu centenário
O ano de 1995 foi histórico e muito importante para o Flamengo, uma vez que marcava o centenário de fundação do clube.
Diferente do cenário atual, o Mais Querido passava por grave crise financeira, mas a gestão de Kleber Leite ousou bastante, trouxe jogadores caros, como Romário, Branco, Edmundo, além de manter o Diabo Loiro que era Sávio, a grande promessa do futebol brasileiro pós-Tetra.
Eis que diante de tantas estrelas, manter um comando no vestiário não é fácil, não à toa houveram vários treinadores no curso do Ano Cem do Flamengo, entre eles, Washington Oliveira, o Velho Apolo, ou o Apolinho, famoso cronista esportivo, marcado pela sua longa e prolífica carreira na rádio.
Ele veio egresso da Rádio Globo, já tinha trabalhado em diversas rádios, até em televisão como na Rede Manchete e Rede Globo. Como a gestão do Flamengo vinha do também jornalista Kleber Leite, se pensou em Apolinho para assumir a função, mesmo sem experiência anterior alguma.
Isso ocorreu depois da queda de Edinho, mesmo que o jornalista não se imaginasse na função. Falaremos mais a respeito disso, abaixo.

Como Apolinho acabou se tornando técnico do Flamengo:
Vanderlei Luxemburgo foi o primeiro treinador do time rubro-negro no ano de 1995. Ele ganhou a Taça Guanabara, no fatídico momento em que Romário se comparou a Deus…
Fora esse momento pitoresco – que vale até um artigo separado – o time não vinha bem e Luxa, caiu. Antes de Apolinho entrar, foram treinadores do Mengão o interino Marcos Paquetá e o ex-jogador Edinho. O primeiro, fez apenas um jogo, o segundo catorze.
Washington Oliveira estava justamente com Luxemburgo, almoçando, quando recebeu o convite. Segundo o próprio, ele sugeriria Telê Santana, mas aquela altura, nenhum treinador queria assumir o Flamengo.

Eis que o Velho Apolo aceitou o convite, nesse que parecia ser mais um golpe de marketing do que uma ação séria.
Parceria entre Apolinho e PC Gusmão
A passagem começou em setembro de 1995. Apolinho chegou na Gávea, com a Charanga Rubro-Negra (a banda flamenguista) mandando beijos para as pessoas, com os sons característico do conjunto musical.
PC Gusmão, que viria a se tornar treinador no futuro, na época era preparador de goleiros, foi dado como o treinador interino, ao menos, de acordo com a imprensa. Essa interinidade, segundo ele próprio, jamais foi combinada e ele não queria tal função naquele momento.
Gusmão negou a possibilidade. Ele queria mesmo era ir para a seleção brasileira na função que fazia, julgava que para fazer uma gestão tática, precisava ter uma visão mais geral, sendo preparador de goleiros, ele via apenas a faixa defensiva do campo, especialmente a da área.
Segundo PC, até poderia assumir o time em um jogo de meio de semana, mas seria somente isso e “na amizade”, ou seja, seria apenas um favor aos seus superiores. Depois de comunicar isso aos seus superiores, ele se viu não tendo que assumir a bronca, embora fosse obrigado.
No dia seguinte, ele viu a banda entrando, tocando o hino do Flamengo.
Segundo Paulo Cesar, Apolinho chega a falar com ele, em segredo:
Tu vai me ajudar, que eu não sei porr@ nenhuma!
Gusmão disse que ajudaria, mas ele mesmo não tinha uma visão sobre tática maior que as ações do guarda-redes, afirmou então que “estariam juntos”, pois ele também não sabia fazer o que Apolinho dizia não saber. Logo, chegaria o auxiliar Arthur Bernardes, para de fato auxiliar o Velho Apolo.
O time ia mal no Campeonato Brasileiro e estava às vésperas do início da Supercopa Libertadores de 1995, campeonato que reunia os vencedores do torneio continental. Esse torneio é tão icônico que merece um artigo à parte.
Washington seguiu treinando, mas como não tinha a documentação necessária e a licença equivalente já que não tinha diploma em educação física ou algo equivalente, uma vez que era da área de comunicação.
Para ser o responsável na súmula, foi PC que comandou o time.

Segundo Gusmão, Apolinho ficava com o ouvido grudado no rádio, ouvindo o comentarista Sergio Noronha – o seu Nonô – também vendo um monitor ao lado, ao invés de falar direto com os jogadores ou auxiliares. Esse último episódio, ele fez em um jogo com o Juventude, em Caxias do Sul. Era baixinho, em uma parte baixa, por isso preferia apelar para a tecnologia ao invés de falar com as pessoas.
Engraçado, um bufão
Apolinho tinha 61 anos, suas indicações eram engraçadas. Ele mandou Ronaldão, que seria o capitão do time, não escovar os dentes, nem pentear o cabelo, basicamente para entrar na mente do juiz e dos adversários.
Também disse para ele, na hora de tirar cara ou coroa escolher as duas opções, tudo para confundir…
Há relatos que Rodrigues tinha um ponto eletrônico no ouvido, onde ouvia ordens de Kleber Leite. Não tinha preparo ou algo que o valha, mas era engraçado, era carisma puro.
O retrospecto
Apolinho comandou o Flamengo em 26 jogos, teve 11 vitórias, 8 empates e 7 derrotas. Marcou 32 gols e sofreu 30. Ele foi vice na Supercopa da Libertadores, com aproveitamento geral foi de apenas 52,5%. Vale lembrar que o time jogou com reservas no Campeonato Brasileiro, que Washington chamava de Fla 2.
Houve inclusive uma polêmica sobre rebaixamento, que eventualmente, é alvo de mentiras e fake news.
Ídolo e despedida
Apolinho é referência dentro da área, um comentarista de inúmeros bordões, como “Feliz que nem pinto no lixo”,“Briga de Cachorro Grande” e “Chocolate” ao se referir a goleadas, mas ele era mais do que isso.
Ele era uma entidade do rádio brasileiro, especialmente o carioca, um baluarte do jornalismo esportivo.
Jamais negou seu sangue rubro-negro, há vídeos sensacionais dele falando: acaba de chegar São Judas Tadeu, no Maracanã, pouco antes da histórica falta de Petkovic se preparava para bater o gol que daria o tri carioca ao Flamengo sobre o Vasco.
Também se destaca a cobertura da final da Libertadores de 2019, onde ele fala há plenos pulmões que o Flamengo era foda, no meio da transmissão da Rádio Tupi, no Youtube.
Quando ele findou sua existência nesse plano terreno, seu velório foi na sede do clube, na Gávea, aberta para o público.
Ele era uma figura carismática, talentosa, espirituosa, um baita comunicador. É certamente um dos maiores flamenguistas da história, merece toda memória em volta do seu nome, mesmo que não tenha ido bem como treinador.
Ainda assim, há várias histórias engraçadas da passagem dele.
Confira as nossas postagens especiais sobre o centenário do Flamengo:
Sobre Romário no Flamengo
Parte 1: A Chegada
Parte 2: A Parte Financeira
Parte 3: O Frasista
Parte 4 : A Estreia
Parte 5 : O Primeiro jogo no Maracanã
Parte 6: O Primeiro gol de Romário pelo Flamengo
Sobre outros causos:
O Gol de barriga de Renato Gaúcho
A estreia de Edmundo no Flamengo
Em breve retornamos com mais episódios de Apolinho como treinador do Mais Querido.
Vamos Flamengo!
