Uma breve memória sobre a histórica chegada do Romário no Flamengo
No dia 14 de janeiro de 1995, um marco acontecia no futebol brasileiro e no clube rubro-negro carioca: Romário, o melhor jogador do mundo, eleito melhor jogador da Copa do Mundo de 1994, deixava o Barcelona da Espanha para vir ao Flamengo, o time mais popular do Brasil.
Depois de passar pelo PSV Eindhoven na Holanda e pelo próprio time azul-grená da Catalunha, por algum motivo, Romário queria retornar para casa.
Há quem defenda que ele tinha saudades do Rio de Janeiro, da família, há também quem fale que ele queria aproveitar o mulheril – comentário claro, maldoso, já que oficialmente ele ainda era casado com Mônica Santoro (e iria se divorcia em março desse mesmo 1995) fato é que ele chegou ao Flamengo em janeiro do ano do centenário do Mais Querido, fazendo história desde o primeiro passo dele com a camisa rubro-negra, até antes disso, inclusive.
Adeus Barcelona
Depois de ter tido uma vivência pessoal conturbada na Europa, ainda em alta, Romário decidiu que deveria retornar ao Brasil, mas não para jogar em seu clube de origem, o Vasco da Gama e sim no seu maior rival, o rubro-negro da Gávea.
Para isso, teve que fazer todo um processo árduo, que envolveria muita gente e muito interesses.
A chegada e as frases
Em um dia mega ensolarado no Rio, Romário chegava, às 8 horas da manhã. Havia torcedores de outros times, muita gente vestindo vermelho e preto, até mesmo um Papai Noel apareceu, mesmo que fosse esse um dia 14 de janeiro, após as festas de natal, de ano novo e até o Dia de Reis, que é a tradicional data de 6 de janeiro onde toda a decoração de final já está recolhida.
A justificativa oficial que Romário entregou foi que ele gostaria de ganhar um Campeonato Brasileiro, título que ele não tinha e que só ganharia em 2000, pelo rival cruzmaltino, além de querer ser vencedor da Libertadores, tento esse que não venceu.
Diz também que nem precisa justificar sua chegada, falando para os presentes na sala de coletiva “irem lá fora” para ver todo o povo que o recebeu.
Abaixo, uma matéria da Rede Globo, com o sempre marcante Tino Marcos, falando a respeito da chegada do Baixinho na Gávea e no Rio de Janeiro.
Foram mais de três mil pessoas no estádio da Gávea, em um calor faraônico.
Momentos antes, o alívio
Antes disso, houve uma espécie de Operação Resgate, em Barcelona, onde os dirigentes rubro-negros resolveram as pendências junto ao Barcelona, para trazer Romário de volta a Terra Brasilis.
Em vídeos da época, Romário cumprimenta o vice-presidente do Barça, Juan Gaspart e ainda na Europa, posa com a camisa número 11 vermelha e preta.
Bom frasista, ao comentar sobre a camisa do Flamengo, disse “só tava faltando o Romário aqui dentro, agora tá completo!”. Poucos jogadores sabiam valorizar a própria imagem e sabiam se vender tão bem quanto o Baixinho conseguia fazer.
Na sala de imprensa gringa, colocaram um painel com todos os patrocinadores da época, se viam marcas que nem existem mais, como Banco Real (que anos depois, se tornariam parte do Grupo Santander) também Barra Shopping, Brahma Chopp, a marca esportiva Umbro.
Em outro capítulo falaremos mais detalhadamente do ajuntamento de empresas que ajudou a financiar essa vinda de Romário.
Em espanhol ele disse que é o momento de voltar ao seu país, aos seus amigos, família e a sua casa, mas disse que é por motivos profissionais. Diz que foi feliz nesse um ano e meio e que encontrar um time como o Barcelona será impossível, mas que iria para o time mais popular e importante do Brasil.
O valor real dessa chegada
Vale falar o seguinte ao leitor que não tenha isso vivo na memória, também aos que não eram vivos ainda em 1995: nessa época começava a ocorrer o êxodo de jogadores brasileiros e sul-americanos para a Europa, no entanto, não era tão comum que jogadores não europeus estivessem na Europa, ainda mais com tanto brilho.
Romário era o melhor jogador do mundo, mas era diferente do que foi mais tarde com Rivaldo, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Kaká e Vinícius Júnior, já que cada um desses, (em graus diferentes claro) já tinham mais compatriotas jogando na Europa.
Diferente de Romário, nenhum desses sequer pensava (ou pensa, no caso de Vini) em voltar para o Brasil, ao menos não tão cedo, não tendo vencido recentemente.
Romário reunia em si a pecha de, como Messi, ter ganho a Copa como principal jogador, da sua seleção estava no auge físico, como muitos dos citados, além de estar em dos times mais badalados de sua época, já que foi vice-campeão da Europa, tendo perdido a final para o Milan de Fábio Capello, que era um timaço, com Donadoni, Albertini e Paolo Maldini.
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Ele foi treinado por uma lenda do futebol mundial, Johan Cruyff, era companheiro de jogadores lendários e alguns craques, defendia o Barcelona com os “espanhóis” Zubizarreta e Pep Guardiola (eram na verdade basco e catalão, respectivamente) o holandês Ronald Koeman e o búlgaro Hristo Stoichkov.
Times cariocas quebrados
Fato é que os times do Rio de Janeiro não estavam bem das pernas, financeiramente falando.
A maioria dos clubes grandes estava mal, devendo salário, em uma situação completamente diferente da atual, em épocas de vacas gordas para alguns times (Flamengo e Palmeiras) e dezenas de SAFs.
Flamengo e Vasco estavam quebrados, mas havia o desejo da parte do cartola Kleber Leite (que até então, era conhecido por ser radialista, inclusive por Romário, enquanto estava na Europa) de fazer a marca do Flamengo crescer, mesmo que isso comprometesse todo o futuro financeiro do clube.
Não havia uma grande preocupação com a saúde financeira clube, isso era um assunto tão pouco debatido que era quase um palavrão no vocabulário da maioria dos dirigentes.
E como disse o jornalista Gilmar Ferreira, que era bem próximo do Baixinho, Romário queria voltar para o Rio de Janeiro, vivia uma crise pessoal em seu casamento e queria estar em casa.
Os valores
O Flamengo desembolsou uma quantia considerável, 4,5 milhões de dólares, algo absurdo para a época. Junto aos tributos, a quantia aumentou em 25% graças a tributos.
O Barcelona só aceitaria abrir negociação com o Flamengo pelo valor estipulado no “passe” do artilheiro – essa era uma outra época, se um time comprasse o passe do jogador ele era obrigado a jogar por esse time e isso só mudou após a Lei Pelé, sancionada por sua vez em 1998 – por 7 milhões de dólares.
A ideia era tentar vender por 9 milhões de dólares, mas obviamente não conseguiram isso. No começo de janeiro, Romário disse que queria voltar ao Brasil e graças a pressão do jogador, o preço foi caindo, até chegar no acordo firmado.
Segundo o mesmo Gilmar Ferreira, que era próximo de Romário – e que escreveu Romário – “Van goot tot god (De favelado a Deus) uma biografia do ex-jogador – quem poderia trazer ele era o São Paulo, que acabava de ser campeão do Torneio Intercontinental (ou o Mundial de Clubes) em cima do mesmo Milan que venceu o Barcelona.
Romário não queria ir para São Paulo, tanto que jamais jogou lá, no Brasil só disputou jogos oficiais por times cariocas, Flamengo, Vasco, Fluminense e América do Rio, time onde ele é atualmente presidente. Com a eleição de Kléber Leite, as conversas entre o cartola brasileiro e Gaspart, se intensificou e o acordo foi fechado.
Sobre o desempenho de Romário, em outra oportunidades falaremos mais sobre os números e os títulos do Baixinho, mas apesar de 1995 não ter sido um ano bom para o Flamengo, o artilheiro marcou 45 gols na temporada pelo rubro-negro, uma marca incrível.
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A imagem acima mostra um lance de Romário e entre os patrocínios se destaca a tentativa do Rio de Janeiro de sediar a olímpiada em 2004, muito antes de 2016, onde finalmente conseguiria.
Nesse pleito, acabou vencendo a candidatura grega, o berço das Olimpíadas modernas, em Atenas. Essa ação foi importante, aliás, sendo outro assunto a descortinar em breve.
A imposição do passe
Para o negócio, o Barcelona fez uma imposição, de que o clube brasileiro não poderia vender o passe do atacante antes de junho de 1996, data do fim do contrato assinado pelo artilheiro no meio de 1993.
Graças a questões burocráticas, adiaram a apresentação de Romário. Ele só foi de fato levado ao clube quatro dias depois de Kléber Leite selar o acordo.
13 dias depois, Romário estreou com a camisa rubro-negra em um amistoso com o Uruguai, no Serra Dourada, em breve falaremos desse jogo específico.
No próximo capítulo da série, discutiremos sobre as marcas unidas – o tal do Pool de empresas – que viabilizaram a chegada de Romário, também falaremos da proximidade da prefeitura e como a chegada do craque influenciou até os rivais e “ajudou” um rival a ganhar um título importante.
Até a próxima!
Vamos Flamengo.
Confira as nossas postagens especiais sobre a chegada de Romário ao Flamengo:
Parte 1: A Chegada
Parte 2: A Parte Financeira
Parte 3: O Frasista
Parte 4 : A Estreia
Parte 5 : O Primeiro jogo no Maracanã
Parte 6:O Primeiro gol de Romário pelo Flamengo