Arthur Muhlenberg: eterno nas palavras…
Uma pessoa chamada Arthur já carrega algo de especial no nome – e o Arthur, motivo deste texto, confirmou isso desde o primeiro encontro.
Conheço Arthur Muhlenberg, autor da obra Da Lama ao Tri, o primeiro livro que tive a honra de ilustrar, em 2013.
Quem me apresentou ao Arthur foi o saudoso Paschoal Ambrósio Filho que, ao lado de Roberto Sander, ambos à frente da Maquinaria Editora – atuavam como publishers.
E como sou grato por aquele encontro.
Lembro daquela noite de 17 de dezembro de 2013, na Livraria da Travessa, no Leblon, como se fosse hoje.
Nosso contato foi uma breve apresentação, um aperto de mão, algo que se tornou imediato, daqueles raros, de admiração mútua.
Eu, encantado com a forrma com que Arthur decifrava os meandros rubro-negros com uma sensibilidade absurda, transformando paixão em palavra, arquibancada em literatura.
Ele, por sua vez, olhou para as minhas charges com um olhar generoso – desses que não julgam, que acolhem – e enxergou nelas um pedaço que poderia completar sua obra.
Arthur era assim: aberto, humano, gente boa de verdade. Um rubro-negro apaixonado, mas acima de tudo, um homem de coração largo.
Aceitou, sem questionar ou sem querer decidir aquela parada sozinho, como um outro Arthur, camisa 10 do Flamengo, que tantas vezes decidiu sem medo – ele também decidiu ali, confiando.
E confiou em mim.
Um desconhecido.
E talvez aí esteja uma das maiorres grandezas que alguém pode ter: confiar antes mesmo de ter motivos.
Guardo até hoje, como quem guarda um pedaço da própria vida, aquela noite em que estive ao lado dele autografando livros – livros que levavam o nome dele, que fizeram pessoas irem até lá por ele, não por mim.
E, ainda assim, Arthur fazia questão de me incluir, de me apresentar, de dividir aquele momento como se eu fosse parte essencial de tudo.
Cada gesto do Arthur me mostrou o gigante que ele era naquele momento, ao me incluir naquele jogo como se eu fosse um jogador importante daquele livro.
Quanta grandeza!
Quanta generosidade!
Ele sorridente, eu feliz por vivenciar aquele momento. Uma cena simples, mas que hoje ganha um tamanho imenso dentro de mim.
O tempo passou. A vida nos levou por caminhos diferentes e nossas conversas foram ficando raras.
E, quando menos se espera, a distância deixa de ser apenas geográfica e passa a ser também do tempo.
Arthur adoeceu… e eu não consegui visitá-lo, não consegui sequer enviar uma mensagem para saber como andava a saúde dele.
Isso fica.
Isso pesa.
Fica aquele silêncio cheio de coisas que poderiam ter sido ditas.
Fica a vontade de mais um encontro, de mais uma conversa, de mais uma troca sobre o Flamengo e sobre a vida.
E não me perdoo por isso!
Mas também fica o essencial.
Fica o privilégio de ter cruzado o caminho de alguém tão grande. Fica a lembrança de uma encontro verdadeiro.
Fica a gratidão.
E, acima de tudo, fica o Arthur – eterno nas palavras, na generosidade e na marca que deixou em mim.

