Zico: grandeza que não cabe em taças!
Um amigo (?) me enviou um vídeo em que Zico cai ao tentar dominar um lançamento de Arrascaeta, no Jogo das Estrelas, realizado no sábado (27) no Maracanã. A cena provoca risos – desses rápidos, quase automáticos. Mas logo o riso cede lugar à reflexão. E a reflexão insiste.
Não é a queda que importa. É o que ela revela.
Por que o esporte já não fabrica homens como o Zico? E por que a sociedade parece ter esquecido como se constroem figuras públicas como Arthur Antunes Coimbra?
Zico nunca foi apenas um jogador. Foi, antes de tudo, um modo de estar no mundo. No futebol, ensinava com os pés. Fora dele, com o comportamento. Um homem que fez da disciplina um hábito, do respeito um gesto cotidiano e do trabalho uma vocação silenciosa.
Na Gávea chegava antes de todos e saía depois. Não por obrigação, mas por convicção. Era craque – talvez o maior de sua geração – e, ainda assim, não escolhia terreno nem ocasião. Maracanã lotado ou Moça Bonita sob o sol impiedoso, campo torto, arquibancada rala: o compromisso era o mesmo. Porque caráter não se adapta à conveniência.
Zico atravessou uma carreira inteira sem precisar do escândalo para existir. Nunca foi manchete pelo que fez fora de campo, nem precisou de frases de efeito para ser ouvido. Viveu à margem do ruído – esse barulho moderno que transforma irrelevância em fama. A boa notícia não vende, dizem os entendidos. Mas constrói.
Quando parou de jogar de forma oficial pelo Flamengo, naquele 2 de dezembro de 1989, na goleada de 5 a 0 sobre o Fluminense, em Juíz de Fora, Zico não parou de ensinar. Na Turquia foi referência. No Japão ajudou a fundar uma cultura – e virou entidade. Na Itália, o aplauso veio do pé, no Estádio Friuli, em 2017, como se o tempo tivesse parado para agradecer. Porque há homens que não passaram: permanecem.
Enquanto isso, o Brasil vai se tornando um País órfão. Família se desfazem antes de se formarem. Crianças crescem sem espelho, sem presença, sem voz firme ao lado. E, no vazio, surgem ídolos improvisados. Nomes que gritam onde deveria haver silêncio. Personagens que exibem excessos como virtude e confundem liberdade com desordem.
O trabalho paciente virou coisa antiga. A disciplina ultrapassada. O respeito, dispensável. Em seu lugar, a ostentação, a exposição, o espetáculo da própria intimidade. Tudo ao alcance de um clique nas redes sociais. Tudo longe do essencial.
Zico pertence a outra linhagem. A de Pelé. A de Ayton Senna. Homens observados de perto, vigiados o tempo inteiro, e que, ainda assim, souberam ser exemplo. Quem não quis ser um deles? Que não sonhou em imitá-los, não só no talento, mas na postura?
Pelé e Senna partiram. Zico ficou. E talvez por isso pese tanto. Ele é um dos últimos representantes de um Brasil que ensinava pelo gesto, não pelo discurso. Um homem inteiro: marido, pai, avô, amigo, companheiro de trabalho. Um cidadão que devolve ao jogo o que o jogo lhe deu, ano após ano, no Futebol das Estrelas.
Muitos lembram dos gols. Poucos lembram das renúncias. Chegar é possível. Permanecer é o desafio. Zico disse muitos “nãos” para ser quem foi – e quem ainda é. E pouco importa não ter levado a Copa do MUndo. O argumento é raso, quase infantil. Há grandezas que não cabem em taças. Manter o casamento com a amada Sandra por 50 anos é maior do que a Copa do Mundo que não veio.
Mesmo nas controvérsias, Zico não muda. Na polêmica envolvendo o CFZ e o futebol feminino, respondeu como sempre fez: sem ataque, sem pose, sem desvio. Verdade dita em linha reta, como seus passos e gols.
Aquele vídeo da queda não mostra um homem tropeçando. Mostra um tempo passando. E, talvez, um alerta.
O Brasil precisa de mais “Zicos”.
No esporte.
Na vida pública.
E, sobretudo na casa das pessoas!
