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    Marcos Vinicius Cabral
    Marcos Vinicius Cabral
    Formado em Comunicação Social pela Anhanguera, campus Niterói, Marcos Vinicius Cabral é jornalista com passagens pelo O São Gonçalo, A Tribuna, Coluna do Fla e o POVO. Rubro-negro desde o nascimento é, ao lado de Sergio Pugliese, autor do livro sobre o Leandro, ex-lateral do Flamengo e da seleção brasileira.
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    Eu, meu tio Baiano, O Flamengo, e a Libertadores de novo

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    Dia de decisão!

    Há frases que parecem nascer prontas para atravessar gerações. “Grandes clubes há vários; diferenciado, apenas um”. Eduardo Monsanto talvez nem imaginasse que sua linha teria textura de oração, dessas que a gente repete sem perceber, como quem acende a luz de casa para avisar que chegou.

    O Flamengo, dizem os devotos, não é time: é estado de espírito. Uma vibração que começa no Maracanã, se espalha pelo País e, quando vê, já está ocupando até o pensamento de quem jura não ligar para futebol.

    Foi dentro dessa vibração que vivi um dos primeiros terremotos da minha memória.

    Tinha sete para oito anos quando Victor Merello caminhou até a bola no Estádio Nacional de Santiago. Não era nem final ainda, mas já tinha cheiro de destino. Lembro do sofá da casa dos meus avós em Nova Friburgo, da madeira escura da estante, do frio miúdo entrando pelas frestas da janela – e, sobretudo, da sensação de estar protegido ali, enfiado no abraço do meu tio Baiano. José Cláudio, Diniz, para quem não teve a sorte de conhecê-lo.

    Ele ajeitou meu ombro com cuidado de quem molda um barro frágil. Talvez soubesse que aquele instante ficaria guardado com mais força do que muitos aniversários, natais ou formaturas. Merello respirou fundo. Tomou distância. E, eu, criança que acreditava no poder de fechar os olhos para evitar o mundo, desviei o rosto na hora do chute.

    Engano meu. O destino sempre encontra uma fresta. Leandro tentou o desvio de cabeça e enganou Raul. Gol aos 39 do segundo tempo. A voz de Luciano do Valle atravessou a sala, cortante como faca.

    Naquele momento, sem entender muito de tristezas grandes, aprendi uma pequena: a de ver alguém que você ama ficar sem palavras.

    Aquela noite foi gelada. Não sei se por causa do clima serrano ou por causa da derrota.

    Três dias depois, em Montevidéu, o mesmo futebol que nos derruba nos levanta. Zico devolveu ao meu coração Rubro-Negro a esperança, como quem recoloca um quadro torto no lugar. Dois gols, a taça, e o Flamengo de 81 – Raul, Leandro, Marinho, Mozer e Júnior; Andrade, Adílio e Zico; Tita, Nunes e Lico – se tornou, para mim, uma espécie de mitologia.

    Meus heróis eram personagens que eu conhecia pelas arrancadas, não pelas letras. Fábulas vivas, tão reais quanto O Meu Pé de Laranja Lima ou Bisa Bia, Bisa Bel que eu, ainda menino, devorava na mesma época.

    O mais curioso é descobrir, já adulto, que aquele time completo só jogou junto quatro vezes.

    Quatro!

    Às vezes é isso mesmo que basta para virar lenda.

    Corta para 23 de novembro de 2019. O menino já não existe. No lugar dele, um homem: artista plástico, jornalista, marido de Raquel, pai de Gabrielle. Um homem que carrega a ausência do tio Baiano, que nos deixou 18 meses antes – e que, mesmo assim, teima em aparecer nos detalhes, nas memórias, nos silêncios.

    E o Flamengo… o de 1981, não existe mais. O de 2019, terceiro maior time da história nesses 130 anos, está na prateleira dos meus melhores sonhos. Já o de 2021, tricampeão da Libertadores, confesso: é pouco lembrado!

    O Flamengo de 2025 parece escrito por algum roteirista viciado em drama e final feliz com: Rossi; Varela, Léo Ortiz, Léo Pereira e Alex Sandro; Erick Pulgar, Jorginho, Saúl e Arrascaeta; Carrascal e Bruno Henrique.

    Esse é o time que lembro como uma orquestra afinadíssima, mas tocando sempre na beira do precipício – como convém ao Flamengo.

    Diferente disso, é devaneio de Filipe Luís.

    O Flamengo pode ser o primeiro clube brasileiro a vencer quatro vezes a Libertadores. Mais um feito!

    Vieram as histórias que não cabem só nos placares: o 3 a 0 no Palmeiras; o 1 a 0 no Santos; o 3 a 1 no Inter; o 1 a 1 com o Grêmio; e o 5 a 0 que virou fotografia eterna.

    A Nação, que nunca espera sentada, mais uma vez vai se reunir – tensa, fervendo, mas acreditando.

    Dizem que o tempo leva tudo. Talvez leve mesmo. Mas não levou aquela noite de 1981, nem o abraço do meu tio Baiano, nem o choro escondido de um menino friburguense.

    O tempo, quando quer, sabe ser generoso. Sabe devolver esperanças que a gente nem percebeu que perdeu.

    E hoje, dia de mais uma decisão, o coração rubro-negro inteiro parece repetir, quase como se estivesse chamando alguma velha entidade: Éééééééé campeeeãããããooo!

    A Nação espera. E quando a Nação espera, até o destino fica em posição de alerta!

     

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