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    Filipe Pereira
    Filipe Pereira
    Escritor, roteirista, jornalista com foco em cultura, esporte e política. Acima de tudo rubro-negro.
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    30 anos do gol de barriga e O Fla-Flu que inverteu a idolatria de Renato Gaúcho no Flamengo

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    O histórico gol de Renato faz 30 anos, confira como foi esse momento que obliterou a figura de veneração que Portaluppi antes tinha no Mengão.

    Em um dia 25 de junho de 1995 – por motivos de força maior (Mundial de Clubes acontecendo) acabamos nos enrolando com a data, mandando texto apenas hoje, dia 28 – o time do Flamengo, acabou perdendo a chance de conquistar um título em cima do seu rival tricolor, justo no ano do seu centenário.

    Na época, a equipe rubro-negra tinha altos investimentos, contava com craques como Sávio, Nélio e Romário, mas esse acabou sendo um ano sem títulos, que ainda teve essa, que foi uma das derrotas mais doídas e amargas da história do clube da Gávea.

    Como o passado não é feito só de alegrias, tiramos um espaço para rememorar essa página melancólica da história do Mengão.

    Afinal, as derrotas favorecem e abrilhantam as vitórias, sustentam as glórias e as valorizam.

    A situação como ela era

    Como bem falamos anteriormente, Romário chegou ao Flamengo no início da época, em janeiro de 1995.

    Após ter vencido a Copa do Mundo de 1994, ele forçou a saída do Barcelona, era, até então o melhor jogador do mundo. Mesmo com o Flamengo passando por uma grave crise financeira, era evidente que havia uma enorme expectativa sobre o ano de noventa e cinco, se esperava algo grandioso, cheio de pompa e vulto, mas o que se viu foi só um projeto tosco e megalomaníaco.

    Como o Mais Querido completava cem anos, a diretoria, liderada pelo jornalista Kleber Leite, queria um ano de glórias.

    Para que isso ocorresse, houve toda uma engenharia financeira para tentar viabilizar um time mais competitivo. Na prática esse esforço gerou muitas dívidas, além de não ter garantido nada em matéria de conquistas, já que o Flamengo não ganhou absolutamente nenhuma taça no seu ano cem.

    30 anos do gol de barriga e O Fla-Flu que inverteu a idolatria de Renato Gaúcho no Flamengo
    Romário e Rodrigo Mendes, em jogo de 1995. Imagem: Divulgação.

    Renato no Flu

    Portaluppi já havia tido passagens por dois rivais do tricolor, o Flamengo – falaremos mais a respeito disso nesse artigo – e no Botafogo.

    Em 1995, ele não estava exatamente no auge, mas ainda jogava bem e tinha capacidade de decidir a favor dos seus times. Pois bem, o estadual do Rio de Janeiro tinha um regulamento diferenciado, que previa um octogonal final e justo no último jogo, foi que ocorreu o tal “gol de Renato”.

    Discussões sobre a autoria do gol ou não, é fato que esse jogo certamente é um dos mais emblemáticos da história do Fluminense, para todos os efeitos, talvez esse seja o jogo mais lembrado da carreira de Renato e o título tricolor mais celebrado.

    É curioso, visto que o Fluminense foi campeão brasileiro após os anos 2000, foi vice da Libertadores, com Renato de técnico e foi campeão da Liberta em 2023.

    Nenhum desses alcançou a popularidade do título de 95, não em termos midiáticos e históricos, esse é sim um momento muito lembrado.

    30 anos do gol de barriga e O Fla-Flu que inverteu a idolatria de Renato Gaúcho no Flamengo
    O gol de barriga. Imagem: Divulgação.

    O Flu chegou à última rodada precisando do resultado contra o Flamengo e Renato, aos 41 minutos do segundo tempo, desviou o chute de Aílton com a barriga.

    Ficha técnica e detalhes

    A partida foi realizada no dia 25 de junho de 1995 e o placar foi Fluminense 3 x 2 Flamengo. Aconteceu no Maracanã e começou às 16:00. O árbitro foi Leo Feldman, que expulsou Lima, Sorley, Lira do Fluminense e Marquinhos do Flamengo.

    Fluminense jogou com Wellerson, Ronald, Lima, Sorley e Lira; Marcio Costa, Djair, Rogerinho (Ézio) e Aílton; Renato Gaúcho e Leonardo (Cadu). Treinador: Joel Santana.

    Já o Flamengo entrou com Roger, Marcos Adriano (Rodrigo Mendes) Gélson Baresi, Jorge Luis e Branco; Charles Guerreiro, Fabinho, Marquinhos e William (Mazinho); Romário e Sávio. Treinador: Vanderlei Luxemburgo.

    Na súmula, outra informação sobre o gol

    Vale lembrar que na súmula de Léo Feldman, o gol foi creditado a Aílton.

    Os gols foram de Renato, aos 30 minutos, depois Leonardo fez outro, aos 42.

    Romário descontou aos 71, Fabinho empatou para o Flamengo aos 79. Já a intervenção abdominal ocorreu aos 87 minutos, quase no finzinho da partida, mas o gol foi creditado a Aílton.

    Em 2020, Feldman explicou por que deu o gol para Aílton. Em entrevista ao UOL, disse:

    A jogada foi toda dele. Ele dá dois cortes lindos no Charles Guerreiro e bate cruzado. A bola entraria sem bater na barriga do Renato, que até se encolheu para não tomar bolada. Eu defendi isso em um programa na TVE, com o Paulo Stein, na frente do Renato, anos depois. Nem Renato nem Aílton tinham visto aquela súmula

     

     

    Vendo de longe, de fato parece que foi um lance apenas de Aílton, com interferência mínima de Renato.

    Obviamente que para os anais, Renato puxará um pouco da glória para si, afinal, imagens das câmeras mostram a redonda batendo em sua barriga, mas o talento futebolístico, nesse caso, foi do seu companheiro de time.

    Nas transmissões

    A favor do argumento de Feldman, há inclusive as transmissões da época.

    José Carlos Araújo, o Garotinho, disse que achava que era gol de Aílton também.

    Para mim, na transmissão, foi o Ailton, que corta para um lado, corta para o outro, e chuta. Então, eu narrei o gol do Ailton, certo que era gol do Ailton…

    Diante disso, Renato disse que sua intenção inicial era recolher o braço, para não causar falta, tocando a bola com as mãos. Ele inclusive disse que não quis fazer o gol de barriga, queria sim não usar o braço na bola e pelo que se vê nas imagens de arquivo, conseguiu.

    Dito isso, é capaz de se afirmar que o tal gol de barriga, é, de certa forma, um bom exemplar da máxima conhecida como Efeito Mandela, que é um termo popular para um fenômeno em que um grande número de pessoas compartilha uma lembrança incorreta sobre algo do passado, acreditando com convicção que ela é verdadeira, mesmo quando claramente não é verdade essa memória.

    Renato e o restante da passagem no tricolor

    Depois do título, Renato passou por vários momentos curiosos no Fluminense. Chegou à semifinal do Brasileirão daquele ano, título que acabou com o rival Botafogo.

    Ele foi eleito Reio do Rio, tirou fotos promocionais após uma grande noitada – tanto que dizia nem se lembrar de ter se vestido tal qual um nobre.

    Renato rei do rio
    Foto de 1995, no jornal o Globo, com Renato após uma noita bastante longa… Imagem: Divulgação.

    No entanto sua cena mais curiosa após a barrigada foi em 1996. 

    O atacante tentou tranquilizar a torcida na briga contra o rebaixamento, dizendo que salvaria o time e que sairia nu caso o Tricolor caísse. 

    Vale lembrar que Renato era sim um sexy symbol naquela época, mas sua promessa não tinha a ver com vaidade exibicionista, era na verdade uma tentativa de mostrar confiança no próprio taco, excluindo daí o claro o teor fálico da frase.

    Para piorar a situação, o tricolor terminou mal a temporada e foi rebaixado, na penúltima posição, mas o Fluminense não jogou a Série B de 1997 por conta de uma virada de mesa no Caso Ivens Mendes.

    Renato, claro, se esquivou e não cumpriu a promessa, afinal, para todos os efeitos, o time não caiu.

    Foi a partir daí que o time recebeu o incômodo apelido de Tapetense.

    Já em 1997, Renato foi um dos atores que abrilhantaram a icônica matéria da ESPN Brasil, com Cícero Melo, a famosa “Ratos de Praia”, junto a Edmundo e Romário.

    Ele dizia que a praia era o seu escritório, ainda reclamava de não receber os rendimentos do tricolor.

    Ainda haveria um desafio ao seleção brasileira de beach soccer…eram outros tempos, onde a gaiatice e a irreverência reinavam, até sobre o profissionalismo, embora nem Renato, nem Romário e nem Edmundo estivessem errados nessa situação.

    Um dia talvez voltemos a falar sobre esse causo, em matéria separada.

    Ídolo do Flamengo? Renato Já foi, um dia, já hoje…

    É curioso como Renato se tornou, após esse famigerado gol, persona non grata no Flamengo.

    Ora, ele é um jogador histórico do time, teve ao todo quatro passagens pelo Mais Querido, sendo a mais frutífera obviamente a que correspondia as temporadas 1987 e 1988, onde como ponta-direita, serviu o time campeão do Campeonato Brasileiro e Copa União, junto a Zico, Zinho, Bebeto e cia.

    Foi nessa época inclusive que ele foi registrado em imagens, retirando um urubu no gramado do Maracanã, animal esse tacado pela torcida.

    Renato e o Urubu
    Renato Gaúcho e o urubu no campo. Foto: Divulgação

    Depois ainda retornaria em 1989, ficando até o ano seguinte. Depois desse momento, jogaria em Botafogo, Grêmio e Cruzeiro para em 1993 voltar ao Mengão, para o fatídico momento onde brigaria com Djalminha e onde disputaria até a partida contra o Espérance da Tunísia, em solo africano.

    Sua última passagem foi em 1997-98, onde chegou a disputar o torneio e amistoso internacional, o Palma de Mallorca, em que enfrentou nada menos que o Real Madrid de Seedorf.

    Treinou o Mengão

    Renato ganharia ainda a chance de treinar o Flamengo, assumindo a vaga de técnico principal em 2021, após a injusta queda de Rogério Ceni.

    Ele chegou a disputar a final da Libertadores, contra o Palmeiras, mas sua falta de noção tática comprometeu o time e a tragédia de Montevidéu ocorreu.

    Ou seja, mesmo com esse capítulo tenebroso recente – que é visto assim por esse analista, mas que boa parte das pessoas não considera que a culpa maior foi dele – Renato deveria ser considerado como figura mais favorável e menos como algoz.

    Ainda sobre a final do carioca: uma experiência pessoal

    Antes de terminar o texto, resgato um momento curioso de minha vida.

    Esse 25 de junho de 1995 marcou esse analista pessoalmente, já que esse Filipe, quando criança, do alto dos seus 7 anos de idade, percebeu pela primeira vez comoe era perder no futebol.

    Meus pais não eram muito ligados ao esporte bretão, mal tinham times, já minha avó materna era fanática pelo Flamengo, desde que ouviu sobre o Mengão pelo rádio, quando ainda morava no Ceará.

    Já o meu avô Osmar, tricolor nato e esposo dessa mesma avó, tentou me convencer a virar à casaca. Como eu tinha 7 anos, balancei, mas o doutor Ulisses, delegado do apartamento de baixo, me convenceu a não mudar, afinal, segundo ele, o Flamengo tinha Zico.

    Eu não sabia (ainda) quem era o Galinho, afinal, o eterno camisa 10 da Gávea já tinha parado de jogar no Flamengo, mas agradeço até hoje ao vizinho, por não me permitir falhar no caráter e mudar de time.

    Ser Flamengo é parte fundamental de quem eu sou. Ainda bem que sou rubro-negro.

    A marca de Renato, que deixou de ser Portaluppi e virou Gaúcho

    Para muitos, o momento mais emblemático para Renato nem é o título mundial com o Grêmio, época em que era o craque máximo do tricolor gaúcho (digno até de estátua e do apelido, Deusnato) ou mesmo a Libertadores de 2017, que o Imortal venceu bravamente, contra o pequeno Lánus da Argentina.

    Para muitos, Renato, Renight, o Rei do Rio, é o Renato do gol de barriga, o cabeludo com faixa do Porcão na cabeça. Para todos os efeitos, essas pessoas não estão erradas.

    O feito claramente só é grande por ter sido em cima do Flamengo que investiu tanto e fracassou. Grandeza também é ter suas derrotas louvadas.

    Flamengo é de fato gigante e o ódio do rival só aumenta e sustenta essa tese.

    Em breve retornamos com mais informações e análises.

    Vamos Flamengo.

     

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