No ano 100 do Mengão, a escola Estácio de Sá resolveu homenagear o clube, resultando assim em um hino cantado nos estádios.
1995 foi um ano histórico para o Flamengo, já que foi um momento sacro, de comemoração dos cem anos do Clube de Regatas tão amado. Entre momentos de euforia e decepções, ocorreram muitos eventos, como a chegada de Romário ao time, o ingresso de outros grandes jogadores e também um desfile histórico na Sapucaí, através da escola Estácio de Sá.
A canção Uma Vez Flamengo foi levada para a avenida pela G.R.E.S. Estácio de Sá, no dia 27 de fevereiro.
Na época, o Carnaval acabou sendo em fevereiro e não em março como é no ano atual. Falaremos brevemente sobre esse episódio, sobre os resultados do Carnaval e sobre a adoção da música pela arquibancada flamenguista.
O canto e o grito da Estácio de Sá
Em plena Marquês de Sapucaí, Dominguinhos do Estácio cantava os versos do samba tal qual a torcida fazia no Maracanã lotado.
A ideia era ousada, mesclar duas paixões cariocas: o futebol e o Carnaval, algo que é polêmico, obviamente, já que normalmente, não se misturam esses dois temperos. Há quem diga que a mistura é até maldita.
O “hino” cantado na Sapucaí acabou eternizado. É propagado praticamente em todo jogo do Flamengo no Maracanã, com torcedores o entoando a plenos pulmões, mesmo décadas depois da sua inauguração.
O momento da escola
Como a escola Estácio de Sá havia sido campeã poucos anos antes, em 1992, havia uma grande expectativa em relação a esse desfile, não à toa contrataram David Corrêa, que já havia composto sucessos para a Portela.
Um dos outros compositores, Gustavo Clarão (que não foi creditado como tal) disse que Corrêa impôs muito o seu estilo na melodia.
Definiu Corrêa como o “bambambam” nas escolas anteriores, mas disse que ali ele precisaria se provar. Ele precisava fazer um hit, uma música chiclete, que pegasse na avenida. De fato pegou, não só ali, como no Maraca também.
Clarão falava na época que era contra misturar samba com futebol, mas elogiou o trabalho do companheiro, que inclusive, era tricolor. Disse:
Não tem preço escutar seu samba com a galera cantando no Maracanã.
Nomes consagrados nessa fase da Estácio de Sá
Nas fileiras da escola, haviam nomes famosos e pomposos, em vários setores. O intérprete oficial era Dominguinhos do Estácio, que já havia sido campeão pela Imperatriz Leopoldinense e ainda marcaria época na Viradouro.
O casal de mestre-sala e porta-bandeira era formado por Claudinho e Selminha Sorriso, que foram para a Beija-Flor em 1996. Na escola de Nilópolis colecionariam vitórias e títulos.
O mestre de bateria era Ciça, uma referência no quesito e o carnavalesco era Mario Borriello, campeão com o Salgueiro em 1993, com o famoso samba Peguei um Ita no Norte.
Os compositores
Como dito antes, David Corrê era um autor de sambas premiados, especialmente na Portela. Aqui ele se juntou a nomes consagrados, como Deo e Caruso, que eram compositores de Paulicéia Desvairada: 70 Anos de Modernidade.
Corrêa dizia estar “de férias” da Portela. Depois de sua saída da escola de Madureira foi para o Salgueiro e ganhou uma disputa pelo samba, até que chegou nessa Estácio de Sá.
Sobre o fato de torcer pelo Fluminense, ele tratou de diminuir a importância de sua torcida, dizendo que queria alcançar uma composição única.
Disse: “esse negócio de paixão por qualquer coisa, por escola de samba, futebol, depende muito da pessoa. Eu sou Rio de Janeiro. Gosto de falar de qualquer um, até do Flamengo, Vasco, Botafogo”.
Gustavo Clarão também colaborou com o samba, mas não foi citado como autor. Na lista oficial, quem assinou por ele foi seu pai, Deo.
Ele lembra com detalhes das reuniões para compor a música e é fácil achar ele falando bem do samba, louvando o próprio trabalho, orgulhoso pelo fato da música ter se tornado um hino de estádio.
Gustavo faria sucesso na Viradouro futuramente, chegando inclusive a ser presidente da escola de Niterói.
O desfile e as polêmicas
O desfile em si foi bastante problemático, envolto em polêmicas.
Até onde se sabe, essa foi a primeira vez que uma escola de samba homenageou um clube de futebol no Carnaval fluminense, fato que levantou discussões a respeito dessa junção de paixões, tornando a coisa proibitiva, como dito antes.
Para se ter uma ideia, três anos depois, em 1998, a Unidos da Tijuca seria rebaixada ao homenagear o centenário do Vasco da Gama.
Há quem defenda que várias pessoas se recusaram a ver a escola desfilar, gente que não era flamenguista claro, como bem relatou Antônio Simas.

Já Gustavo Clarão elogiou bastante o desfile. Disse que a arrancada foi sensacional e que até quem torcia para outra escola de samba caiu na música e cantarolou junto, já que a paixão pelo Flamengo falou mais alto.
No entanto, ele mesmo destacou que após o início, o ritmo foi esfriando, com a Estácio de Sá passando animada, mas com a arquibancada murchando perto do fim do desfile.
Ídolos escondidos
Outro quesito problemático foi o fato de Zico e Júnior não terem aparecido bem. O último carro alegórico trazia os jogadores campeões mundiais de 1981, até fazia referência ao Japão, mas tanto o Galinho de Quintino quanto o Maestro Junior acabaram passando escondidos na alegoria, ficando pouco visíveis para o público na Sapucaí.
A Estácio de Sá ontem e hoje
O Grêmio Recreativo Escola de Samba Estácio de Sá nem sempre foi chamada assim. Antes tinha o nome Unidos de São Carlos, graças ao lugar onde se originou, o Morro de São Carlos.
Sua fundação foi em 27 de fevereiro de 1955 e o nome “atual” foi adotado em 1983 para representar não só o morro, mas todo bairro do Estácio.
Sua quadra funciona na Avenida Salvador de Sá.

A agremiação possui um título de campeã do Grupo Especial do Rio de Janeiro, conquistado em 1992, com o enredo Paulicéia Desvairada – 70 anos de Modernismo, dos carnavalescos Chico Spinoza e Mário Monteiro.
Também venceu por sete vezes a segunda divisão do Carnaval carioca e outras duas vezes a terceira divisão.
Em 1997 a escola ficou em 13º lugar no Grupo Especial e foi rebaixada. Desde então disputa vagas no Grupo A (equivalente a segunda divisão) até 2004, quando caiu para o Grupo B. Depois de dois acessos consecutivos, acabou entrando no grupo especial em 2007, mas foi imediatamente rebaixada.
Desde então, variou entre Grupo A e Série A (a segunda divisão mudou de nome em 2013) e Série Ouro (que é o nome atual da segunda divisão, desde 2022) tendo participado do Grupo Especial apenas em 2016 e 2020.
Em 2022, a Estácio de Sá reeditou o samba do centenário do Flamengo, na disputa da Sério Ouro, com Mauro Leite e Wagner Gonçalves de carnavalescos.
A Letra
A letra é linda, especialmente o seu refrão, que faz referência as camisas cobra-coral, papagaio vintém, no verso: “Cobra-coral, papagaio vintém; vesti rubro-negro, não tem para ninguém”.

Também se destacam variações de trechos do hino como “Sou Flamengo até morrer”; a fundação por “Seis jovens remadores”; além do destino de ganhar em terra e mar.
Também cita lenda do futebol rubro-negro, como Leônidas da Silva o “Diamante Negro”, Fio Maravilha, Domingos da Guia, Zizinho, Pavão, Zico e Gazela Negra.
A letra inteira é bem bonita, arrisco dizer que o samba foi injustiçado. Abaixo, os seus versos.
“O céu rasgou
Na noite que reluzia
Um show de estrelas
Brilhou nos olhos
De um novo dia
A poesia
Enfeitada de luar
Encantou o Estácio (ó paixão)
Paixão que arde sem parar
É Mengo, tengo
No meu quengo é só Flamengo
Uh ! Tererê
Sou Flamengo até morrer
Seis jovens remadores
Fundam o grupo de regatas
Campeão o seu destino (ô)
É ganhar em terra e mar
Fazendo sol
Pode queimar, pode chover
Vou ver Fla-Flu
Fla-Vas vou ver
Diamante Negro, Fio Maravilha
Domingos da Guia, Zizinho, Pavão
Gazela Negra
Corre o tempo no olhar
Será que você lembra
Como eu lembro o mundial
Que o Zico foi buscar
Só amor
Na alegria e na dor (ôô)
Parabéns dessa galera
Cem anos de primavera
Cobra coral
Papagaio vintém
Vesti rubro-negro
Não tem pra ninguém”
Em breve voltaremos com mais informações e análises.
Vamos Flamengo!