17.7 C
Rio de Janeiro
Mais
    InícioBase6 Anos da Tragédia do Ninho | Uma análise a respeito dos...

    6 Anos da Tragédia do Ninho | Uma análise a respeito dos documentários sobre a tragédia com os garotos do ninho

    Publicado em

    Essa é uma breve análise sobre documentários que exploram a tragédia e história dos garotos do ninho, a saber: Ninho – Futebol e Tragédia, do streaming Netflix, além de Ninho Vazio, dos canais ESPN.

    Em um dia 8 de fevereiro, no início da gestão de Rodolfo Landim, aconteceu a página mais triste, melancólica e chorosa da história do Clube de Regatas do Flamengo: o incêndio que vitimou Athila Paixão, Arthur Vinícius de Barros Silva Freitas, Bernardo Pisetta, Gedson Santos, Pablo Henrique da Silva Matos, Christian Esmério, Jorge Eduardo Santos, Samuel Thomas Rosa, Vitor Isaías e Rykelmo de Souza Vianna.

    Nesse sexto aniversário da  tragédia, resolvemos nos debruçar sobre o caso, analisando os dois documentários mais famosos a respeito do acontecido, ou seja, falaremos sobre Ninho: Futebol e Tragédia, seriado em três episódios, dirigido por Pedro Asbeg, Renato Fagundes e UOL, além de Ninho Vazio, programa especial  da ESPN, que conta com entrevistas dos parentes que choram a perda dos seus meninos.

    O Ninho: Futebol e Tragédia

    Lançado em 2024, na época do quinto aniversário do triste evento, essa é uma minissérie em formato documentário da Netflix, em parceria com o site UOL.

    Esse é um estudo sobre um capítulo de difícil digestão, especialmente para os torcedores do Flamengo, além de ser uma exposição do caso para fora, para o globo inteiro, já que a Netflix é o mais popular streaming do mundo.

    Recomendamos cautela ao ler o artigo e ao ver o seriado.

    Quem fez:

    Ninho: Futebol e Tragédia estreou no dia 14 de março, foi desenvolvida pelos já citados Pedro Asbeg, um documentarista de mão cheia, responsável pelo curta Deus da Raça, os longas Democracia em Preto e Branco, Geraldinos, América Armada e a série Lei da Selva: A História do Jogo do Bicho.

    Já Renato Fagundes é mais lembrado por seus trabalhos de redação, como nas séries Magnífica 70, Vai que Cola e Sob Pressão.

    O documentário foi produzido por Antonine Morel, Samanta Moraes e Luiz Noronha, tem produção executiva de Cecília Grosso, Clara Nunes e Bruna Inácio, supervisão de roteiro de Renato Fagundes, Coordenação de roteiro Luana Rocha, roteiro da própria Luana Rocha, Muriel Alves, Ligia Carriel e Arthur Warren.

    São três episódios, realizados pela produtora A Fábrica a partir da ideia original do UOL.

    Alerta de gatilho

    Qualquer pessoa que acompanha essa história com o mínimo de sensibilidade sente tristeza, nojo e repulsa ao pensar sobre a questão do incêndio e suas vítimas.

    É praticamente impossível não se revoltar sobre como o caso um todo, como ele foi levado por dirigentes do Flamengo e em como a impunidade corre solta até a atualidade, já que até o momento, não há culpados pelo caso.

    Deixamos portando o aviso de que haverão partes chocantes narradas aqui, assim como há no seriado.

    6 Anos da Tragédia do Ninho | Uma análise sobre os documentários sobre a tragédia com os garotos do ninho
    Imagem: Netflix, divulgação

    Também avisamos que o programa contém dramatizações, mas não há nada muito explícito, do ponto de vista de violência ou gore, ou seja, as cenas não mostram nenhuma filmagem com pessoas em chamas ou algo que o valha.

    Estágios do sono

    Os episódios tem os sugestivos nomes de estágios do sono, uma vez que o incêndio ocorreu à noite, durante o sono dos meninos do Ninho.

    São eles: Sonho, o primeiro, que mostra um pouco do passado dos garotos, Pesadelo, onde se descortina como ocorreu a tragédia, além de Despertar, que fala do pós incêndio e pós perda dos anjos flamenguistas.

    Sonho

    O episódio um começa falando da definição de Ninho:

    Estrutura construída pelas aves, na qual é feita a postura e a incubação dos ovos. Lugar onde os animais os seus filhotes se recolhem e dormem.

    Depois mostra uma breve introdução, que resume todo o drama que será discutido, em uma alusão clara ao que é comum nesse tipo de estudo. Entre as falas, se destaca uma, que é dada por Filipe Chrysman, um dos garotos do ninho que sobreviveram. Com a voz embargada, ele declara: “Depois dessa tragédia, eu nunca mais dormi bem”.

    Esse episódio foca bastante nos atletas Bernardo “Beno” Pisetta (goleiro), Christian Esmério (goleiro que veio do Madureira), Arthur Vinícius (zagueiro), cujos parentes conversam com a produção, além de Wendel Alves (atacante) que sobreviveu ao incêndio e fala aqui.

    Nesse interim, são dados detalhes do cotidiano familiar, da busca deles pelo sonho de se tornar um jogador de futebol profissional, das ambições enquanto atleta e até de posições que costumavam jogar.

    Também se conversa com ex-atletas, gente célebre, que ajuda a ilustrar até para o público leigo o quão grande era o desejo deles de brilhar no futebol, não só daqueles 10, mas também das dezenas de meninos que sobreviveram e de outros tantos milhões .

    Entre os entrevistados conhecidos há Zico, Vanderlei Luxemburgo, também os jornalistas PVC, Marinho Saldanha, Pedro Ivo,

    Léo Burlá. Falaram também Rodrigo Salomão, psicólogo do esporte, Marcos Marinho, agente esportivo, além de dois depoentes muito especiais, as testemunhas da tragédia (e vítimas também) o segurança Benedito Ferreira, o atleta Filipe Chrysman e alguns outros, introduzidos em outros capítulos, como o já citado Wendel Alves.

    Flipe Chrysman jogando pelo Flamengo
    Divulgação: Twitter/Flamengo

    Filipe aliás funciona quase como um narrador do seriado, já que fala em primeira pessoa sobre os momentos tristes que passou. Ele é articulado, sabe se comunicar e passa uma visão bastante singular daquele triste e deprimente momento.

    Chrysman fala um pouco sobre como foi descoberto por um olheiro do Cruzeiro, explica que correu o mundo da bola, demonstra ter uma vida de andarilho do esporte, que em algum momento, parou no Flamengo, como tantos outros meninos, como é hoje com Wesley, Evertton, João Victor, Cleiton, Lorran…como foi com os seus dez colegas vitimados.

    O começo resume bem o drama que é lutar para chegar até a ribalta do futebol profissional. Uma luta árdua, que jovens fazem sem garantia nenhuma de que conseguirão êxito.

    Para muitos, estar no Flamengo era uma irrealidade, que se tornou algo concreto tangível há muito pouco tempo.

    Ainda nesse capítulo, se arranha a superfície sobre o lugar onde os meninos dormiam. Segundo Chrysman, era tudo absolutamente limpo e bem cuidado. Os meninos tinham contato direto com gente do setor estrutural do Flamengo, com as “tias” da limpeza e com gente do refeitório.

    A maioria das pessoas que orbitavam os garotos do ninho, como pais e representantes legais dos jogadores não imaginavam que aquilo poderia ser uma “armadilha” como foi.

    Ninguém pensava que eles dormiam em um lugar com uma única rota de saída e que poderia ocorrer o que ocorreu. A realidade é que poucas pessoas tem noção dos componentes básicos de segurança de trabalho e crianças/adolescentes não saberem disso, tudo bem, é normal, o mesmo pode-se dizer até dos parentes, mas os profissionais do clube, especialmente os de alto escalão, que colocaram a estrutura ali, esses não há como perdoar, por mais que em audiências públicas, todos apareçam se esquivando de responsabilidade.

    A chuva e o prenúncio da tragédia

    Época de começo de ano é comum chover bastante pelo Brasil, ainda mais em uma cidade litorânea como o Rio de Janeiro.

    Pois bem, ocorreu uma baita chuva em Vargem Grande, derrubou postes e árvores, dois dias antes do incêndio, no dia 6 de fevereiro.

    Ela seria o aviso para que tirassem os meninos dali, visto que boa parte do bairro e região sofreu com a ação natural. Os dias ainda seguiam com muito calor, de um modo que se não ligassem o ar condicionado no contêiner, os meninos não conseguiriam dormir.

    Esse era um lugar temporário, que reunia seis beliches por quarto, com seis camas, portanto. Algumas fontes, em falas públicas, diziam inclusive que aquela era a última semana dos meninos naquele lugar.

    O teor artístico que pincela a tragédia

    Asbeg monta seu “filme” de uma maneira que foge um bocado da estética de documentário quadrado. O uso da trilha sonora, composta por Pedro Mamede ajuda  a misturar o lúdico da música com cenas reais, filmagens distantes, cenas internas e dramatizações, mas o que chama a atenção é a emoção com que é levada a sequência.

    É impossível não se importar com tudo, com o drama, com a vida interrompida e até com momentos mais básicos da rotina dos meninos, mesmo que não sejam pessoas conhecidas.

    Mesmo uma plateia que jamais tenha visto algo do Flamengo, que não saiba de nada relacionado a futebol, é convidada a se emocionar junto.

    Benedito

    Além de Filipe, há um outro personagem muito importante: Benedito Ferreira, o segurança que salvou três garotos e que foi vítima também, principalmente no lado sentimental, já que ele claramente se culpa por não ter conseguido salvar outros.

    6 Anos da Tragédia do Ninho | Uma análise sobre os documentários sobre a tragédia com os garotos do ninho
    Imagem: Netflix Divulgação

    Seu depoimento é comprometido pela voz embargada do mesmo e pela tentativa de segurar o choro, mas sua fala é perfeitamente compreensível do ponto de vista de sentido e mais compreensível ainda na questão emocional.

    Ele relata que chegou a quebrar um vidro na janela, para tirar os meninos, alguns já queimados em um primeiro momento.

    Ao falar que um dos garotos do ninho disse que os que estavam mais atrás não conseguiram sair, ele quase desaba, só descrevendo o momento.

    Também afirma, logo depois, que todos só tiveram a real proporção do que ocorreu, bem depois, quando começaram a contar os meninos, chamando nome a nome.

    O pesadelo

    O segundo episódio passeia por parentes que fizeram o caminho na direção de Vargem Grande, no CT George Helal, o popular Ninho do Urubu.

    Esse episódio destaca as falas do jornalista Léo Burlá, que foi o repórter que conseguiu as primeiras informações sobre as irresponsabilidades da diretoria do Flamengo que acabou de sair, a que era capitaneada por Eduardo Bandeira de Mello.

    Ainda sobre as falas de Benedito, segundo ele, quando os bombeiros chegaram, já não havia mais incêndio, apenas pequenos focos. O fogo abrasador já havia sido contido.

    A medida que são falados os nomes dos meninos, eventualmente se mostram parentes dos garotos do ninho. Quase todos choram, lamentam a perda mais inesperada e trágica possível, mas antes disso, o Flamengo havia pago hotel para alguns parentes, mas em um primeiro momento, não falaram sequer se as crianças morreram.

    A parte em que Sebastião de Souza, o tio de Samuel fala com a imprensa, dizendo que queria estar conversando com repórteres louvando gols e cruzamentos do garoto é muito triste, é de partir o coração, simplesmente.

    6 Anos da Tragédia do Ninho | Uma análise sobre os documentários sobre a tragédia com os garotos do ninho
    Imagem: Netflix

    Sua voz embargada, temperada pela melancolia depressiva é forte.

    O sujeito ainda passou mal, à caminho do IML, ficando impossibilitado de reconhecer o corpo do parente.

    Segredos revelados:

    Em fala de Mauro Cezar Pereira (um dos jornalistas que mais cobrou as duas diretorias, de Landim e Bandeira de Mello sobre o caso) ele diz: “Vários esqueletos começam a sair do armário” se referindo claro a segredos que começaram a ser revelados.

    De fato isso ocorre. O dormitório não tinha alvará, houve uma autuação no local, também não havia certificado do corpo de bombeiros. É um mistério como aquilo ainda estava de pé, haviam mais de trinta multas emitidas ao Flamengo e desde 2017 havia a ordem para que aquilo fosse desativado.

    Depois da tragédia, o CT foi lacrado por agentes da prefeitura do Rio, à essa altura, já tarde demais.

    Resposta da diretoria:

    A diretoria se reuniu na sede da Gávea, dividindo em dois grupos, um para falar com as famílias, cuidando do lado humanitário, enquanto o segundo grupo foi averiguar as condições, estrutura e questões do centro de treinamento, afinal, essa era uma nova diretoria, que acabava de assumir o poder.

    Reinaldo Belotti, CEO do Flamengo, diz que o que aconteceu não foi por falta de investimento do Flamengo. Quis assim limpar a barra das duas diretorias, que mesmo adversárias em pleito, não jogavam a culpa uma para a outra, não nesse momento, pelo menos.

    Polícia e desacordos com a gestão Landim

    Já a polícia tentava fazer os meninos que sobreviveram falar, mas a maioria não conseguia. Estavam traumatizados, a maioria era muito novo, alguns de baixa escolaridade.

    Já com o antigo segurança, Benedito, não houve muita cordialidade. Eles chegaram a perguntar para ele se o mesmo dormia no posto, no momento da incidência, o que para  ele foi algo ofensivo, já que ele salvou pelo menos três meninos, ainda se machucou quebrando o vidro de uma janela, para resgatar um dos garotos.

    Depois de negar o óbvio, na volta à caminho de casa, ele passou mal. Mais tarde, momentos assim se tornariam rotineiros para o sujeito, como bem diria o laudo médico.

    Nesse bloco, também é mostrada a tentativa de desenrolar um acordo com as família. Cíntia Guedes, a promotora do caso disse que a diretoria Landim dizia que “o Flamengo não ia barganhar com a vida dos meninos”.

    A ideia seria pagar um valor fixo para todas as famílias, mas não havia um prazo para isso. No entanto, o Flamengo contratou outro grupo de advogados e os termos mudaram radicalmente, mas isso só foi avisado depois…muito depois.

    A ausência do presidente

    Houve uma tentativa de mediação, cujas consequências foram terríveis. O Flamengo providenciou passagens para os parentes, mas o presidente Rodolfo Landim não foi ao encontro das famílias.

    Depois disso, o clima que já era horrível, só piorou. Não houve nenhuma tentativa de fazer um mea culpa, um pedido de desculpas. Os advogados do clubes simplesmente não tinham nenhuma proposta, o VP jurídico, Rodrigo Dunshee, ainda disse que teria uma reunião dali a 15 minutos.

    O novo escritório não era especializado em conciliação e sim de gestão de crise. Além de ser o politico que estava ali para sanar as dúvidas das famílias, Dunshee foi candidato da posição para o pleito 2025-28.

    Aqui ele consegue fazer um dos maiores papelões da história do Flamengo, já que foi o porta-voz da ausência do presidente, além de também ter dito que tinha uma outra reunião, 20 minutos depois, por isso, não poderia ficar muito tempo com as dez famílias.

    6 Anos da Tragédia do Ninho | Uma análise sobre os documentários sobre a tragédia com os garotos do ninho
    Pela ordem, Rodrigo Dunshee e Rodolfo Landim, foto: Agência Foto BR

    Qual compromisso poderia ser mais importante que esse? Dez grupos de pessoas, que acabaram de perder uma preciosidade cada, dez núcleos familiares saíram de suas casas, pelo Brasil, para se reunir com a diretoria, mas Dunshee tinha uma reunião e Landim não pôde estar.

    Familiares se indagam e falam a imprensa sobre o óbvio, reclamam com razão da patifaria que a diretoria atual fazia com eles.

    Peritos criminais:

    O perito Amaro Coelho diz que houve uma falha no ar condicionado no quarto seis, um superaquecimento, que ocasionou um curto-circuito. Sendo assim, o fogo gerado atingiu mobília, especialmente camas, sendo um lugar fechado, rapidamente se alastrou.

    Ou seja, é dado que há muita improvisação e negligência. No lugar não haviam muitas tomadas, portanto, fizeram ligação direta diversas vezes. Também haviam instalações fora de conduítes e emendas grosseiras, sem revestimento.

    As trocas de e-mail

    Não foi á toa que o UOL foi uma das empresas produtoras. Léo Burlá e Pedro Ivo trabalhavam no site, na época.

    O primeiro conseguiu o furo de que o Flamengo sabia que as condições dos “alojamentos” eram precários, tendo acesso a uma série de e-mails. Já Ivo era o editor de Burlá.

    Ou seja, se sabia que haviam problemas na rede elétrica, segundo uma empresa, a CBI, companhia contratada para verificar a questão.

    Destaco aqui, parte do documentário, em que Pedro Ivo lê uma mensagem de Luiz Humberto Costa Tavares, gerente de administração do clube, para Marcelo Helman, diretor executivo de administração do Flamengo.

    Sobre a conclusão, o relatório diz: “as irregularidades abaixo não serão tratadas no momento, pois, conforme informação, o local será demolido e substituído por novas instalações até o final do ano de 2018, deixando claro que caso haja fiscalização e autuação o argumento mesmo que evidente não justifica a irregularidade, ficando a critério do órgão fiscalizador a penalidade ou intervenção”.

    Ou seja, se confiou que a estrutura seria substituída por alojamentos que seriam construídos no fim de 2018.

    Obras assim às vezes atrasam e só se deu de ombros para tudo. Também havia possibilidade do incêndio acontecer antes, afinal, era época de calor extremo no Rio de Janeiro.

    Não há como fingir que só aconteceu aquilo por conta de ser fevereiro…é demais. Aquela era uma tragédia anunciada e ignorada.

    Despertar

    O terceiro episódio começa falando do caos do Flamengo, de como o clube era mal gerido financeiramente nas gestões anteriores.

    Zico fala que “era um negócio medonho” e em uma das passagens de Vanderlei Luxemburgo, começou-se a usar o espaço de Vargem Grande, o mesmo que seria o palco do popular Ninho do Urubu.

    O CT (Centro de Treinamento) foi feito para fazer o Flamengo deixar de ser chacota. Nesse momento o episódio mostra imagens ridículas, jogadores sendo arrastados em carrinhos de mão.

    Também se fala que treinadores emprestavam dinheiro para atletas e os jogadores mais ricos bancavam coisas como ar condicionado em sala de musculação.

    Em 2011 começou a se fazer estruturas provisórias, quando Luxa veio. No começo, haviam edificações pouco seguras, que seriam utilizadas por um tempo.

    Como Bandeira venceu a eleição e assumiu em 2012, o George Helal (nome oficial do Ninho do Urubu) foi levantado e se tornou o que hoje é um dos melhores CTs do continente. Ainda assim, as crianças ficaram nessa armadilha. O contêiner onde aconteceu o incêndio era um resquício dessa época antiga, em algum momentos, os profissionais ficaram ali, mas em um período curto.

    A barração

    Quando a tragédia fez aniversário, as famílias tentaram ir no Ninho e simplesmente foram barradas, exceto uma delas, a de Pablo Henrique, que solicitou presença com antecedência.

    Esse tipo de burocracia é tola, sem sentido, fútil e mais do que tudo isso, absolutamente cruel. Essas famílias deveriam ter livre acesso ao CT, que é o memorial dos seus filhos perdidos.

    A diretoria fez uma missa na Gávea e não convidou nenhuma das famílias… estavam lá, isolados, rezando para Alguém Maior e intangível, mas seguiam ignorando as pessoas de carne o osso, as mesmas que sentiram a dor da perda real, na carne e na alma.

    A CPI

    Na CPI, chamaram Bandeira de Mello. Ele foi, mas Landim sequer apareceu, mais uma vez. A impressão que foi dada é que a diretoria do Flamengo não ampararia as famílias.

    Burlá relembra que o contêiner foi uma academia improvisada, depois foi adaptada para um dormitório. Material que dilata no calor, com portas de correr…tudo errado, fora as janelas gradeadas, que ninguém assume quem teve a ideia de fazer.

    Garoto mercadoria:

    O documentário reflete bem sobre a condição de trabalhador precário, ou como Marinho Saldanha define bem: o Pé de Obra. A fala da promotora, de que “quanto menos puder gastar, melhor” reforça essa reflexão.

    Asbeg usa um artificio semelhante ao que o documentarista Eduardo Coutinho fazia, de levar os personagens até um momento de emoção.

    Os pais de alguns dos garotos do ninho vão até os campinhos onde os meninos jogaram. Lá, choram, se entristecem, ainda se passam cenas de gravações amadoras, dos garotos treinando.

    Isso poderia ser encarado como algo pesado, uma exploração trágica, mas obviamente não é, já o uso do pretexto de que o clube não investiria, graças a narrativa de que o pagamento das indenizações atrapalharia a chegada de reforços, é sim um ato pesado e muito covarde.

    Ainda em 2019, Flamengo trouxe o treinador português Jorge Jesus, depois trouxe outros tantos, pagando multas milionárias na recisão de muitos deles. Trouxe ídolos para dentro de campo como Gerson, Gabigol, Bruno Henrique, Arrascaeta, Rafinha, Rodrigo Caio, Filipe Luís…alguns pagando multa, depois ainda veio Pedro, Cebolinha, Luiz Araújo, De La Cruz, tantos outros jogadores caros.

    Um contrato decente de indenização custa bem menos que o investimento nesses atleta. Fica feio para o clube, uma vergonha tremenda, uma prova de insensibilidade e até maldade.

    Futuro fora do Flamengo:

    O segurança Benedito, Wendel (que foi para o Internacional de Porto Alegre) e Filipe já não trabalham mais no Flamengo.

    Wendel Alves dá bons depoimentos, disse que segue com a santinha de Nossa Senhora Aparecida que sua mãe deu, a mesma que a parente jura que despertou o menino, para que ele acordasse no meio do trágico momento.

    Filipe estava no Guarani, na época da gravação. Ele mal dorme, vive em uma grande paranoia. Se sente mal sempre que está em um lugar fechado, onde há ar condicionado. Wendel também tem momentos parecidos, ao sentir o cheiro do aparelho de esquentar comida do CT. Isso era suficiente para fazer ele lembrar do caso.

    Já Benedito teve publicado o resultado da sua perícia médica em fevereiro de 2024. O documento indica que ele carrega graves sequelas psicológicas e está inapto a trabalhar como segurança. Até hoje segue o processo que ele move pelo Flamengo.

    Sua demissão foi fria, segundo o próprio ele foi muito mal tratado, sofrendo descaso, como se nada de traumatizante tivesse ocorrido naquele dia.

    Conclusão

    Ninho: Futebol e Tragédia é um trabalho esmerado, emotivo e informativo. Dado o seu conteúdo, dá para ser chamado também de revoltante, mas não graças aos que o fizeram, mas sim pelo descaso de quem tratou o caso. É mais um belo trabalho de Asbeg e Duarte, um dos mais emotivos em duas filmografias que costumam explorar bem temas que fogem à razão.

    Ninho Vazio

    O especial da ESPN é um programa que conversa diretamente com Wedson Cândido, pai de Pablo Henrique, com Rosana Souza, a mãe de Rykelmo Viana, também com Marilia Barros, a mãe de Arthur Vinícius e com Darlei Pisetta, pai de Bernardo Pisetta.

    A reportagem e apresentação é de Duda Gonçalves, produção de Andreza Galdeano.

    Ninho Vazio
    Imagem: Divulgação ESPN

    Aqui se detalham coisas que o documentário de Asbeg não conseguiu, como o fato de Rosana ter uma filha com necessidades especiais, de modo que a família já tinha várias dificuldades além da perda do garoto vitimado.

    Vale lembrar que, fora as quatro famílias apresentados aqui (e os pais de Esmério, que estiveram no documentário da Netflix) a maioria prefere ficar quieta, não falam muito, não dão entrevista, preferem guardar sua dor para si.

    Quem garante que essas pessoas conseguem viver de maneira minimamente funcional, diante desse trauma?  A vida, para a maioria dos parentes é inviabilizada, já que boa parte deles não consegue trabalhar, alguns são pais solo, não tem parente, nem outros filhos ou irmãos, pais etc.  A indenização garantiria que eles pudessem existir com alguma tranquilidade, já que curados da dor eles jamais serão.

    Wedson por exemplo, consegue falar, mas deixa claro suas dificuldades, da proximidade com o seu sobrinho, Werley que era atleta do Vasco e que atualizou todo o caso, já que o clube não fazia isso e da eterna saudade que sente do seu menino.

    Foi o primo aliás, quem atualizou o status para a família. Imagine a cabeça desse garoto, tendo que falar para os tios que o parente e amigo de infância estava provavelmente morto…

    A maioria das famílias reclama de que não havia nenhuma conversa direta, um telefonema que fosse, para anunciar a morte do garoto ou para consolar eles.

    Sem acesso ao Ninho

    Ainda sobre Rosana (mãe de Rykelmo) ela afirma algo importante: os pais não tinham acesso ao Ninho, nem quando eles eram vivos.

    Pisetta corrobora essa versão, diz que sabia que os meninos estavam em uma composição temporária, mas jamais viu onde estavam alojados.

    Rosana diz que acha normal, que cada empresa tem uma forma de lidar com seus funcionários, até exemplifica isso, falando que quando Rykelmo jogou em outros clubes, em alguns ela tinha liberdade de entrar no lugar onde o filho e colegas dormiam, mas em outros, não.

    Isso nem é um problema, não seria, caso não houvesse uma tragédia, mas a forma como ela encara essa situação evidencia outra questão pontual.

    Em seu instinto poliânico (adjetivo derivado da personagem literária Poliana, conhecida por ser tão otimista que chega a ser ingênua) de ver o lado bom das coisas, ela não percebe o tamanho da negligência que ocorreu com o seu menino. Para ela, talvez seja melhor assim, já que o seu sofrimento materno poderia ser maior, ao notar que ele foi explorado até o seu último dia, enquanto a diretoria Landim não permitia que ela estivesse perto do seu “menino de ouro”.

    Curioso que tanto Arthur quanto Rykelmo achavam que aquele ano, 2019, era o ano deles, o da decisão, do “vai ou racha”. Poderia ter sido, eles poderiam ter brilhado muito, em jogos da base, já que no profissional o time foi multi-campeão.

    Também é triste por conta de que para alguns dos meninos, como Bernardo, haveria logo mais uma ação no Maracanã. Os garotos do ninho iriam jogar um treino de apresentação, marcado para aquele mesmo fevereiro. Esse momento, obviamente, jamais chegou para eles.

    Qualquer espaço para os pais falarem é pouco, por isso, mesmo que Ninho Vazio não seja tão genial quanto Ninho: Futebol e Tragédia, vale a pena demais ver.

    A homenagem

    Se a diretoria não cumpriu minimamente seu papel, a torcida do Flamengo fez sua parte, cantando sempre aos dez minutos, de qualquer jogo, uma versão de Azul da Cor do Mar, com a letra referenciando os meninos:

    A torcida não deixa esquecer e não é para acontecer mesmo.

    A todos que amam o Flamengo, que professam a fé rubro-negra, que ostentam as cores vermelho e preto como as primordiais, a esses, cabe lembrar, lamentar e se indignar por não haver justiça.

    É mais do que apenas “pagar as famílias”, cobrar somente isso é cretino. É preciso também entender que é necessário e obrigatório que se faça justiça pelos dez garotos do ninho.

    É isso. Em breve voltamos com mais informações.

    Vamos Flamengo!

    Últimas Notícias

    Semifinal do Carioca: Flamengo e Vasco se enfrentam no Engenhão

    Flamengo e Vasco se enfrentam pela semifinal A Federação de Futebol do Estado do Rio...

    De olho no rival do Flamengo: Vasco entra com pedido de recuperação judicial

    Dívida do rival do Flamengo passa de R$ 1 bilhão! O adversário do Flamengo na...

    Flamengo se reapresenta no Ninho do Urubu

    Flamengo volta aos treinos focando duelo contra o Vasco! O elenco do Flamengo se reapresentou...

    A volta de Pedro ao Flamengo e a lesão de Cebolinha

    Pedro recuperado e Cebolinha lesionado! O Flamengo informou nesta segunda- feira (24) a lesão de...

    Leia Mais

    Semifinal do Carioca: Flamengo e Vasco se enfrentam no Engenhão

    Flamengo e Vasco se enfrentam pela semifinal A Federação de Futebol do Estado do Rio...

    De olho no rival do Flamengo: Vasco entra com pedido de recuperação judicial

    Dívida do rival do Flamengo passa de R$ 1 bilhão! O adversário do Flamengo na...

    Flamengo se reapresenta no Ninho do Urubu

    Flamengo volta aos treinos focando duelo contra o Vasco! O elenco do Flamengo se reapresentou...